Amores à Parte

(2025) ‧ 1h44

14.08.2025

Entre a comédia e o caos: "Amores à Parte"

O que começa como um drama conjugal logo se transforma em uma comédia de erros sobre relacionamentos modernos em Amores à Parte. O filme apresenta Carey (Kyle Marvin), um homem que vê sua vida desmoronar quando sua esposa Ashley (Adria Arjona) revela uma traição e pede o divórcio. Desnorteado, ele busca apoio nos amigos Julie (Dakota Johnson) e Paul (Michael Angelo Covino), apenas para descobrir que o segredo da “felicidade” deles é um casamento aberto. A partir daí, a história mergulha em um terreno fértil para confusões, ciúmes e reflexões sobre amor, desejo e limites.

A proposta do longa é brincar com o conceito da chamada “não monogamia ética”, um tema que já desperta curiosidade — e polêmica — no mundo real. O roteiro, no entanto, não se propõe a uma análise profunda do assunto; ao contrário, usa a instabilidade emocional dos personagens como combustível para situações absurdas, diálogos sarcásticos e reviravoltas inesperadas. O resultado é uma comédia “não romântica”, como foi vendida, que aposta no caos para arrancar risadas.

Grande parte da força do filme vem do elenco. Dakota Johnson mais uma vez se mostra carismática, mesmo em uma personagem que poderia facilmente cair no estereótipo da “mulher idealizada”. Arjona, apesar de aparecer menos do que merecia, imprime uma energia luminosa a Ashley, equilibrando vulnerabilidade e sensualidade. Já Marvin e Covino, que também assina a direção, encarnam figuras patéticas e desastradas, mas com certo charme, o que garante que o público se mantenha envolvido mesmo quando seus personagens tomam decisões questionáveis.

Visualmente, Amores à Parte também sabe se destacar. A fotografia cria ambientes que reforçam a ironia das situações, como a aparente perfeição da casa de Julie e Paul, um verdadeiro “palco” para as hipocrisias do relacionamento aberto. Essa estética organizada contrasta com o descontrole crescente dos personagens, ressaltando o abismo entre discurso e prática quando o assunto é maturidade emocional.

As melhores cenas surgem justamente quando a narrativa se rende ao absurdo. Um embate físico entre Paul e Carey, motivado pelo ciúme, é um dos pontos altos, misturando humor físico e reflexões sobre a fragilidade do ego masculino. O roteiro consegue, nesses momentos, transformar discussões sérias sobre amor e fidelidade em metáforas hilárias sobre orgulho, insegurança e o eterno descompasso entre razão e emoção.

Apesar do ritmo divertido, o filme nem sempre encontra equilíbrio entre comédia e sinceridade. O terceiro ato, em especial, força algumas situações que soam pouco críveis, ainda que mantenham a dinâmica frenética. Também fica a sensação de que as personagens femininas poderiam ter mais espaço e complexidade, já que são elas, na prática, quem movem a trama enquanto os homens reagem de forma infantilizada.

No fim, Amores à Parte é uma sátira leve, que ri dos relacionamentos contemporâneos sem pretender oferecer respostas definitivas. É engraçado, desconfortável em certos momentos, e exagerado em outros, mas cumpre seu papel de divertir e provocar reflexões rápidas sobre as complicações do amor moderno. Uma “comédia de caos” que pode não agradar a todos, mas encontra sua força justamente na bagunça que cria.

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AUTOR

Felipe Fornari

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