Sonhar com Leões

(2024) ‧ 1h28

08.09.2025

"Sonhar com Leões": O humor diante do fim

Sonhar com Leões, novo longa do diretor luso-grego Paolo Marinou-Blanco, parte de um tema delicado — a eutanásia — para construir uma tragicomédia que equilibra dor, ironia e absurdo. A história de Gilda (Denise Fraga), uma brasileira vivendo em Lisboa e diagnosticada com câncer terminal, encontra no riso e no tom surreal uma forma de encarar o inevitável sem cair em melodrama. Ao optar por tratar a morte como possibilidade de escolha e não apenas como condenação, o filme abre espaço para reflexões necessárias sobre dignidade e autonomia.

Gilda, já cansada de sucessivas tentativas de suicídio mal sucedidas, se vê diante de uma organização clandestina que promete ensinar métodos de autoeutanásia sem dor. A ironia é que, mesmo quando o assunto é morrer, há quem tente lucrar com a fragilidade humana. Esse olhar crítico, que lembra o humor corrosivo de cineastas como Roy Andersson e Yorgos Lanthimos, transforma Sonhar com Leões em algo mais do que uma narrativa pessoal — é também uma crítica ao capitalismo e à mercantilização de todas as etapas da vida.

No entanto, o filme não se sustenta apenas no tom ácido. A atuação de Denise Fraga é um dos pontos altos, carregando uma presença magnética que oscila entre fragilidade e uma força inesperada. Sua relação com Amadeu (João Nunes Monteiro), jovem também em estado terminal, cria uma dupla improvável que conduz a trama por entre oficinas de morte e reflexões sobre o valor da vida. Há uma cumplicidade que cresce aos poucos e que sustenta a segunda metade do longa, mesmo quando o roteiro perde ritmo.

A opção de Marinou-Blanco por usar a quebra da quarta parede como recurso narrativo aproxima o espectador da intimidade de Gilda. Somos nós quem escutamos suas confissões, medos e ironias, funcionando como interlocutores privilegiados de sua despedida. Quando essa dinâmica se esvazia na segunda parte, sentimos o peso de sua ausência, e o filme acaba refém da força da protagonista. Ainda assim, a estratégia é eficaz em criar vínculo emocional.

É interessante como o longa consegue manter a leveza diante de um assunto tão denso. Em diversos momentos, o humor se aproxima da lógica de séries como After Life, em que o riso nasce não da tragédia em si, mas da forma como os personagens decidem lidar com ela. Gilda e Amadeu, ainda que em busca de um fim, acabam reafirmando a importância da vida no processo — e é essa contradição que mantém o interesse da narrativa.

Tecnicamente, Sonhar com Leões aposta em uma estética simples, quase minimalista, mas que casa bem com sua proposta. Os cenários lisboetas, muitas vezes frios e melancólicos, contrastam com o calor humano que surge nas interações entre os personagens. Essa ambiguidade visual reforça o tom tragicômico, em que beleza e tristeza caminham lado a lado.

No balanço final, Sonhar com Leões não é um filme isento de falhas — especialmente no ritmo irregular —, mas sua originalidade e a entrega do elenco, em especial de Denise Fraga, fazem dele uma obra sensível e provocadora. É um daqueles filmes que permanecem na mente pelo desconforto que causam e pelas perguntas que deixam sem resposta.

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AUTOR

Felipe Fornari

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