Como espectador, fui pego de surpresa pelo filme. Confesso que não conhecia nada sobre Montand e Simone Signoret. Agora sei da importância que eles tiveram (e ainda possuem) para os franceses. Como se trata de uma biografia, eu acredito que mais pessoas possam querer saber mais desses 2 antes de assistirem o filme. Então, aqui vai uma breve contextualização.
Para nós, o público brasileiro, é importante entender quem foram Yves Montand e Simone Signore. Fiz minhas pesquisas, e foi muito fácil descobrir que Montand foi um cantor e ator francês extremamente popular, enquanto Simone Signoret foi uma das maiores atrizes do cinema francês. Eles foram casados por mais de três décadas, e formaram um dos casais mais célebres da cultura francesa.

É desse amor complexo e turbulento que o filme retrata. Dirigido por Diane Kurys, o longa faz uma escolha clara, ela não tenta reproduzir fisicamente seus personagens. Essa escolha parece ser uma tendência, vista inclusive aqui no Brasil na minisérie que buscou retratar a vida de Hebe Camargo. Muitos criticaram que Andréa Beltrão não se parecia em nada com Hebe. A mesma opinião também tiveram os familiares de Montand.
Assim como na biografia filmada de Hebe, Kurys opta por filmar a essência dos personagens. A alma do casal e não sua aparência. Marina Foïs e Roschdy Zem não buscam semelhança física com Signoret e Montand, mas seus gestos íntimos, os silêncios e as tensões que compartilharam. O recorte narrativo também é interessante! O longa se concentra nos últimos anos da relação, quando a carreira de Simone entra em declínio, enquanto Montand segue brilhando.
Independentemente de não conhecer ou saber quem eles foram, é possível se conectar com a história. O filme retrata arquetipicamente uma mulher consumida pelo amor que sente por um homem infiel. Os que nunca passaram por algo parecido podem se considerar sortudos. Sofrer por amor é triste, e nos marca profundamente (contém opinião pessoal)!

Signoret é mostrada de forma forte. É lúcida diante das traições e consciente do preço que paga por amar tal homem (aqui vai outra opinião: não consigo entender o porquê!). Montand, por sua vez, surge como um sedutor compulsivo, irritante e incapaz de romper definitivamente esse vínculo.
O grande mérito do filme está em revelar como esse casal permaneceu magneticamente unido apesar de tanta toxicidade e das infidelidades Existe um toque sensível e melancólico na direção, meio que nos mostrando um amor que resiste mesmo quando já não se é mais feliz com ele.
Eu, que te Amei recria a atmosfera do cinema francês dos anos 1970, mostrando uma época que não existe mais. Diane Kurys entrega um filme corajoso, porque entregar biografias é colocar um alvo nas costas. Ela sabe que receberá críticas. Já a aura mística desse casal não faz parte do meu repertório latinoamericano, mas o roteiro me derrubou emocionalmente. Não vou mentir que mexeu um pouco comigo. Tocou em feridasesquecidas que não queriam ser relembradas. Isso pode ser um gatilho para muitas pessoas. Mas a arte é sobre isso, é a catarse necessária para os nossos dramas diários que se afundam em camadas cada vez mais profundas da nossa alma suburbana.







