Rompendo Rochas

(2025) ‧ 1h35

27.11.2025

A coragem de avançar, mesmo quando o chão resiste

Rompendo Rochas é um documentário movido por uma profunda reverência à vida e à transformação possível, mesmo em ambientes marcados por tradições rígidas. Acompanhando Sara Shahverdi, a primeira vereadora eleita em um vilarejo rural e conservador do Irã, o filme constrói um retrato íntimo de uma mulher que desafia limites pessoais e políticos com uma mistura rara de firmeza, empatia e persistência cotidiana.

Filmado em estilo observacional, o documentário se aproxima de Sara sem transformá-la em mito inalcançável. Divorciada, vivendo sozinha e recusando-se a aceitar imposições, ela se apresenta como alguém sempre pronta para subir na moto e lutar, não apenas contra estruturas patriarcais, mas também contra expectativas silenciosas que moldam a vida das mulheres ao seu redor desde a infância. Sua trajetória pessoal já é, por si só, um ato contínuo de resistência.

Antes mesmo da eleição, o filme revela conflitos familiares que espelham as desigualdades estruturais combatidas por Sara. Um embate direto com um de seus irmãos, que tenta excluir as irmãs da herança do pai, antecipa o tipo de enfrentamento que marcará sua atuação política. Após eleita, Sara passa a usar conquistas práticas, como levar gás encanado ao vilarejo, para negociar avanços simbólicos e concretos, incentivando homens a registrarem parte de suas casas no nome das esposas.

Um dos eixos mais emocionantes de Rompendo Rochas está na relação de Sara com meninas e adolescentes da comunidade. Ao visitar uma escola feminina, ela incentiva as alunas a continuarem estudando e a resistirem às pressões familiares pelo casamento infantil. O gesto de levá-las para um passeio de moto, simples à primeira vista, ganha uma potência libertadora, representando um breve vislumbre de autonomia e escolha.

O filme, no entanto, jamais romantiza essa luta. Para cada pequena vitória, há uma derrota dolorosa. Em uma das sequências mais devastadoras, vemos uma jovem em seu dia de casamento, poucas semanas depois de ter experimentado a sensação de liberdade sobre duas rodas. Seu olhar abatido, contrastado com imagens de arquivo do próprio casamento forçado de Sara, evidencia como essas violências se repetem de geração em geração, apesar dos esforços para rompê-las.

As tensões políticas também se intensificam dentro do próprio conselho local, especialmente com a presença de um irmão de Sara, igualmente eleito, que sistematicamente mina suas iniciativas. Esse conflito constante reforça a ideia de que desafiar o sistema tem custos emocionais altos e que o progresso raramente acontece sem resistência ativa de quem se beneficia da ordem estabelecida.

No desfecho agridoce, Sara leva as poucas meninas que escaparam do casamento infantil para mais um passeio de moto, desta vez acompanhadas pelos pais. Sua reflexão final sintetiza o espírito do filme: grandes mudanças exigem paciência, e às vezes são os gestos pequenos que realmente abrem caminho. Sem triunfalismos, Rompendo Rochas se afirma como um documentário poderoso, honesto e profundamente humano sobre a força necessária para seguir avançando quando tudo ao redor insiste em permanecer imóvel.

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AUTOR

Felipe Fornari

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