“O Morro dos Ventos Uivantes”

(2026) ‧ 2h16

09.02.2026

"O Morro dos Ventos Uivantes": Uma paixão que queima, corrói e não pede permissão

As aspas no tpitulo de “O Morro dos Ventos Uivantes” não são mero capricho gráfico: elas anunciam que estamos diante de uma interpretação, não de uma adaptação literal. Emerald Fennell (Bela Vingança e Saltburn) assume o clássico de Emily Brontë como matéria-prima para um mergulho autoral, visceral e profundamente sensorial, interessada menos na fidelidade literária e mais na experiência emocional que a obra sempre provocou, desde a sua adolescência.

Aqui, o romance entre Catherine Earnshaw e Heathcliff não é suavizado nem romantizado. Pelo contrário: Fennell amplifica a obsessão, o desejo e a violência emocional que atravessam essa relação, transformando o amor em uma força devastadora. O que se vê não é uma história de almas gêmeas, mas de duas pessoas que se reconhecem no abismo e escolhem afundar juntas, ainda que isso custe tudo ao redor.

Margot Robbie entrega uma Catherine inquieta, pulsante e contraditória, alguém que deseja liberdade ao mesmo tempo em que se deixa aprisionar por convenções e impulsos destrutivos. Jacob Elordi, por sua vez, talvez encontre aqui um de seus trabalhos mais intensos, compondo um Heathcliff movido por ressentimento, erotismo e uma dor que nunca encontra repouso. A química entre os dois é incendiária, desconfortável e impossível de ignorar.

Visualmente, “O Morro dos Ventos Uivantes” é um espetáculo arrebatador. A direção de arte, os figurinos e a fotografia constroem um universo que exala desejo e melancolia em cada enquadramento. A câmera não observa à distância: ela invade corpos, gestos e silêncios, como se estivesse tão implicada na tragédia quanto seus personagens.

A trilha sonora, assinada por Charli XCX, reforça essa abordagem anacrônica e provocadora. Longe de buscar uma ambientação clássica, a música dialoga com emoções cruas, trazendo uma camada contemporânea que intensifica a sensação de urgência e excesso. O resultado é uma produção que se permite ser sensual, exagerada e, por vezes, sufocante, exatamente como a paixão que retrata.

Fennell também se mostra interessada em subverter expectativas, transformando o conhecido em algo instável. Quem chega esperando a versão “escolar” da história pode estranhar o caminho escolhido, mas essa ruptura é precisamente onde o filme encontra sua força. Ao deslocar o foco da narrativa tradicional, a diretora cria uma leitura que dialoga mais com sentimentos do que com acontecimentos.

Sendo assim, “O Morro dos Ventos Uivantes” é uma experiência que provoca reações extremas, amor ou rejeição, fascínio ou incômodo. É cinema de entrega total, que não busca consenso nem conforto. Emerald Fennell transforma um clássico em algo febril, ardente e emocionalmente devastador, reafirmando que certas histórias não sobrevivem ao tempo por serem belas, mas por serem impossíveis de esquecer.

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AUTOR

Felipe Fornari

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