O Olhar Misterioso do Flamingo

(2025) ‧ 1h49

19.03.2026

O olhar que condena: preconceito e resistência no deserto chileno

O Olhar Misterioso do Flamingo é um drama chileno, escrito e dirigido por Diego Céspedes e vencedor da mostra Un Certain Regard do Festival de Cannes 2025. Fez sua estreia no Brasil no 27º Festival do Rio Festival de Cinema do Rio 2026, integrando parte da mostra Première Latina.

O filme se passa no norte do Chile. O ano é 1982. Nesse cenário vive uma comunidade em condições de isolamento, precariedade e abandono. A maioria dos moradores é de trabalhadores mineiros que deixaram suas famílias para atuar na extração a céu aberto ou em minas subterrâneas, removendo e transportando minério, vivendo em casas de madeira com estruturas frágeis. A fotografia de Angela Faccinni e a direção de arte de Bernadita Braeze nos levam a paisagens fascinantes do deserto chileno.

Nesse ambiente, no qual a presença masculina é preponderante, o contraponto a toda a violência, hostilidade e exploração impostas pela vida e por suas condições miseráveis de sobrevivência é a casa de Mama Boa, interpretada por Paula Dinamarca, e sua família queer, composta por mulheres trans e travestis, em uma verdadeira comunhão de afeto, amorosidade e ajuda mútua.

“Não suportaria o inferno sem você”.

Engana se quem pensa que as integrantes da irmandade de Mama Boa são as protagonistas da história, pois a figura central é Lidia, interpretada por Tamara Cortés, uma garota de apenas 12 anos que foi resgatada por Flamingo, vivido por Matías Catalán, e que passa a exercer o papel de mãe da adolescente. A harmonia dessa unidade familiar passa a ser abalada quando uma doença misteriosa, uma verdadeira peste, começa a se espalhar como um vendaval, deixando rastros de morte e desespero.

“Esta doença não tem cura?”

Como consequência do preconceito e da ignorância que acometem todas as sociedades ditas civilizadas, a responsabilidade por essa tragédia passa a ser imputada às mulheres trans, que supostamente teriam o poder e a capacidade de contágio por meio de um simples olhar, que, na maioria das vezes, são olhares apaixonados e de encantamento. Os homens, em uma atitude violenta e patriarcal, decidem de forma autoritária controlar os corpos das mulheres trans, beirando a excentricidade e o absurdo.

“A peste começa quando um caçador conhece sua presa”.

Lidia, sem entender o que está acontecendo e aprendendo a lutar por si e por sua família, parte em busca de respostas, tornando se uma espécie de cowboy mirim, embalada pela maravilhosa trilha sonora de Pierre Catoni, em uma espécie de homenagem ao gênio Ennio Morricone.

“Por que se apaixonar pode ser tão perigoso?”

A peste, assim denominada a doença misteriosa, trata se, no caso, da AIDS, Síndrome da Imunodeficiência Adquirida. Na extensa filmografia sobre a AIDS, destacam se as seguintes produções: Unidos Pelo Sangue, de Sean Penn; Carandiru, de Hector Babenco; Yesterday, de Darrell Roodt; As Horas, de Stephen Daldry; A Cura, de Peter Horton; Kids, de Larry Clark; The Normal Heart, de Ryan Murphy; Meu Querido Companheiro, de Norman René; Filadélfia, de Jonathan Demme; e Clube de Compras Dallas, de Jean Marc Vallée. O que há de comum nesses filmes é a premissa central: a relação entre a falta de entendimento sobre a doença e a estigmatização da comunidade LGBTQIA+. O filme se passa em 1982, sendo que o primeiro caso de AIDS é de 1981, e no Chile é de 1984. Ou seja, a produção aborda a temática antes de seu reconhecimento oficial pelo poder público.

Aqui vale a pena abordar um aspecto da historicidade, pois, se durante os séculos XVI e XVII, no período da Santa Inquisição, as mulheres eram acusadas, perseguidas e executadas por serem bruxas, nos anos 1980, os travestis e as mulheres trans se tornam alvos da ignorância e da pulsão de ódio, em um contexto social perverso e irreal, impondo àquelas que ousam reivindicar o seu direito de reexistir consequências trágicas para suas vidas.

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AUTOR

Daniela de Oliveira Pires

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