Aisha Não Pode Voar

(2025) ‧ 2h

19.03.2026

Sem asas para fugir: um retrato brutal de sobrevivência e resistência

Aisha Não Pode Voar é um drama que se passa no Cairo, Egito, e mergulha na experiência de uma imigrante sudanesa que tenta sobreviver em um ambiente brutalmente hostil. Dirigido por Morad Mostafa (que estreia como diretor), o filme é marcado pela precariedade, pela violência cotidiana e pelas diversas formas de opressão que atravessam a vida de Aisha. Desde o início, somos lançadas (os) para uma realidade de dureza, em que a promessa de uma vida melhor fora do Sudão está longe de se realizar.

A protagonista, interpretada por Buliana Simona (que também estreia como atriz), carrega o peso da exploração em diferentes esferas de sua vida. Aisha trabalha como cuidadora de idosos por meio de uma agência terceirizada, e é submetida a condições laborais abusivas, acumulando função como ao assumir as tarefas domésticas das casas em que atua. O filme escancara a precarização do trabalho imigrante e feminino, articulando exploração econômica e assédios de diversas dimensões.

E não para por aí. Para Aisha parece não haver refúgio possível, os espaços são atravessados por relações que a subjugam. Além do ambiente profissional, a violência se estende ao espaço comunitário. A presença de uma gangue que controla a região onde Aisha vive intensifica a condição de insegurança e opressão, que a obriga a ceder às exigências criminosas, como fornecer cópias das chaves das casas onde trabalha. Aisha é constantemente objetificada e vulnerabilizada. Aqui gênero, raça e condição migratória se entrelaçam na produção de desigualdades, de assédio sexual ao machismo estrutural. A narrativa não romantiza essas violências, as expõe de forma dura e crua, gerando um sentimento de incômodo e indignação.

Em meio a esse cenário opressivo, surgem pequenos respiros que apontam para possibilidades de humanidade em um contexto desumanizante, pequenos espaços de resistência. A presença de um amigo-admirador que demonstra carinho e ternura por Aisha, ainda que impedido pela família de se relacionar com ela; assim como a presença de um grupo de mulheres, como espaço de escuta, acolhimento e cuidado, conferem sentido político e emocional para a máxima “as amigas salvam”. Poucos vínculos afetivos, mas que fazem toda a diferença.

O filme também recorre ao realismo mágico. A aparição recorrente de uma ema (ave que possui asas, mas não pode voar) funciona como metáfora central da condição de Aisha. A impossibilidade de voo torna-se a imagem síntese de sua existência. Outro elemento simbólico, é uma alergia que irrompe na pele de Aisha, que parece operar como materialização do sofrimento psíquico e do estado de tensão em que vive. Sintoma que expressa o medo, o trauma e o desgaste físico e emocional da condição de vida de Aisha.

É um filme angustiante, sem dúvida. Mais uma vez, a imigração, o racismo e o machismo se apresentam como marcas cotidianas da violência, mas agora no contexto egípcio contemporâneo. Pode ser uma estreia promissora de seu diretor e de sua protagonista, vamos aguardar.

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AUTOR

Renata Barbosa

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