A diretora Carla Camurati não tem problemas em ser colocada como feminista. Dirigiu filmes como Carlota Joaquina, Princesa do Brazil – considerado fundamental para a chamada retomada do cinema nacional, no início dos anos de 1990 – e o curta A Mulher Fatal Encontra o Homem Ideal. Também atuou em longas emblemáticos como Onda Nova (recentemente restaurado e recuperado por ter sido censurado na ditadura) e Eternamente Pagú, possuindo um ótimo histórico em narrativas cinematográficas focadas em mulheres anônimas ou grandiosas na história. É seguindo essa toada que ela empreendeu o projeto de Raízes do Sagrado Feminino, um documentário que articula a representação de figuras femininas e as narrativas sobre mulheres nas cinco maiores religiões hoje no mundo: Hinduísmo, Budismo, Judaísmo, Cristianismo e Islamismo.

O que a escalada atual do índice de feminicídios tem a ver com as narrativas religiosas consideradas sagradas pelas pessoas que as praticam? As religiões moldam sociedades? Por que sempre foram os homens que interpretaram os textos sagrados de cada religião? Essas são algumas das perguntas que surgem durante o documentário. Por mais que se diga que o Estado deve ser laico, separado das morais religiosas e afins, é difícil alguém responder que religiões estão apartadas da sociedade, pois ditam modos de viver, éticas a serem seguidas etc. No filme Raízes do Sagrado Feminino, Camurati propõe uma investigação, passeando por cada uma das cinco religiões e conversando com praticantes, pessoas da pesquisa e também do meio cultural.
O corriqueiro é que filmes assim sejam feitos por realizações estrangeiras, em especial do mundo anglófono. É bastante interessante que a diretora deseje que o filme tenha uma pegada brasileira, entrevistando praticantes de religiões com maioria em outros países, que hoje vivem no Brasil, por exemplo. Também, traz comentários de gente pesquisadora daqui, inserindo a discussão dentro da nossa cultura. O filme tem uma estrutura bem didática, lembrando documentários ao estilo da TV Escola e do Canal Futura. Isso não é demérito se a pretensão é atingir públicos mais amplos, já que a religião é um assunto espinhoso em qualquer época e merece o devido cuidado para justamente abrir o debate e não fechá-lo em si mesmo. A realização também opta em equilibrar nomes famosos como Monja Coen, Mary Del Priori e Frei Betto com pesquisadores acadêmicos no campo das religiões.

Raízes do Sagrado Feminino não tem intenção de dar respostas. Ao apresentar pontos que não se pretendem maniqueístas entre as religiões – muitos doloridos e difíceis de encarar dependendo do ponto de vista em que quem assiste está inserida –, o longa propõe discutir quem que fica responsável pela interpretação e manutenção de narrativas religiosas. Acaba fazendo o movimento de insistir que pessoas que se reconhecem como mulheres sigam ocupando espaços religiosos e propondo leituras múltiplas de textos sagrados, além de questionar a sedimentação em vez de apenas reproduzi-la como se o mundo não girasse.







