O Ano em que o Frevo Não Foi pra Rua

(2024) ‧ 1h11

17.04.2026

O silêncio do frevo: memória, ausência e a força de uma tradição que resiste

O documentário O Ano em que o Frevo Não Foi pra Rua, dirigido por Mariana Soares e Bruno Mazzoco, registra o impacto da pandemia de Covid-19 sobre uma das mais importantes expressões culturais brasileiras: o Carnaval de Recife e Olinda. A obra retrata os anos de 2021 e 2022, quando, em razão da pandemia, o Carnaval foi suspenso. O filme se configura, assim, como uma lembrança de um tempo que pareceu distópico, e consegue articular o contraste entre a alegria do Carnaval e a tristeza do isolamento social.

O documentário reúne depoimentos de músicos, foliões, porta-estandartes e figuras emblemáticas, o que mostra que o Carnaval pernambucano é composto por uma rede de vínculos comunitários sustentada por afetos e pertencimento, muito além de uma festa. A presença de nomes como a cantora Nena Queiroga, Jota Michiles, um dos maiores compositores do frevo e o maestro Spok, retrata a dimensão histórica e artística do frevo, enquanto expressão complexa que articula música, dança e identidade. Aliás, a ênfase no frevo, com sua riqueza rítmica e instrumental (em especial o destaque ao saxofone e às orquestras), situa a complexidade e densidade dessa tradição da cultura pernambucana.

Revisita elementos tradicionais como os bonecos de Olinda, os blocos históricos e figuras icônicas como o Galo da Madrugada e o Homem da Meia-Noite, o que reafirma o lugar do Carnaval como patrimônio cultural e expressão coletiva de vida. O documentário vai incorporando memórias afetivas e lutos pessoais, como no relato de Rudá Rocha sobre seu pai, Zé da Macuca, homenageado no retorno do Carnaval em 2023.

Do ponto de vista formal, contudo, o filme apresenta limitações. A predominância de entrevistas aproxima a obra de um registro mais convencional. Nesse sentido, a avaliação da crítica Enoe Lopes Pontes, da página “coisa de cinéfilo”, que o considera um documentário “morno” e sem grandes emoções, encontra eco.

Ainda assim, há uma honestidade no modo como o documentário se constrói a partir de relatos, priorizando a escuta e a memória. Além disso, mesmo sem grandes inovações formais, o filme reafirma a importância de obras dedicadas à cultura popular brasileira, e cumpre o papel de registrar um momento histórico singular e de valorizar o Carnaval de Recife e Olinda como espaço de memória e identidade. Ao encerrar com o retorno triunfante da festa em 2023, a obra celebra a força de uma tradição que resiste, se reinventa e continua a pulsar como expressão coletiva de vida.

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AUTOR

Renata Barbosa

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