Papagaios, do diretor Douglas Soares, que também assina o roteiro com o ator Humberto Carrão, é um suspense que dialoga com o drama e a comédia, provocando sentimentos discrepantes, porém complementares, como medo, angústia, tensão e risos. O suspense é um gênero que está crescendo no Brasil, principalmente na última década, com destaque para produções que relacionam questões psicológicas, dramas sociais e assassinatos.
Douglas Soares possui uma trajetória como diretor de documentários, em produções como A Alma das Coisas (2023) e Xale (2016), e apresenta agora sua primeira obra de ficção, com personalidade, autenticidade e coragem. Questionado sobre as razões que o levaram a dirigir uma obra de ficção, o diretor nos instiga à reflexão: “Quando a realidade é tão insana, é o momento de se fazer um filme de ficção”.

No início do filme, um questionamento torna-se o fio condutor de toda a narrativa: vale realmente tudo para ser famoso? Na trama, Gero Camilo interpreta, de forma intensa e visceral, Tunico, um famoso “papagaio de pirata”, conhecidos como “os melhores amigos dos repórteres”. São pessoas que estão sempre atrás da notícia, pouco importando o seu conteúdo, que pode ser um velório ou a escolha de um enredo de escola de samba.
No limite, o que vale é a exposição: ser visto, notado, reconhecido, aparecer na TV de qualquer maneira e sem medir as consequências. Ruan Aguiar, em uma atuação contida e instigante, é Beto, um sujeito enigmático e soturno, que parece estar envolto em trevas, transmitindo pavor e medo, e que reconhece em Tunico uma oportunidade de sair da invisibilidade e conquistar notoriedade, mesmo de forma questionável e perigosa.
Aqui reside uma das potências do filme: a relação inesperada e improvável entre Tunico e Beto. Personagens bem desenvolvidos e consistentes, que, entre silêncios e diálogos, extraem a essência da trama. As pessoas são o destaque, mas, conforme declarou Gero Camilo na pré-estreia no Cine Passeio, em Curitiba, “um personagem não pode ser maior que a obra”.

O filme se passa no bairro de Curicica, onde ficam as instalações da Rede Globo, e, nesse aspecto, reside mais um dos destaques da produção: a direção de arte assinada por Elsa Romero, que conseguiu garantir um equilíbrio entre conceito, definição de cores, iluminação e cenografia. Os personagens são definidos por suas personalidades marcantes, mas também por sua identidade visual e pelo contexto social no qual estão inseridos. A fotografia é cuidadosa, fazendo uso, em alguns momentos, de lentes anamórficas, comprimindo a imagem, provocando uma sensação de achatamento vertical, reduzindo o granulado e proporcionando uma experiência visual mais imersiva e sensorial.
Curicica está situada na cidade do Rio de Janeiro, longe do mar, mas perto das desigualdades sociais, onde as celebridades são cultuadas por uma legião de invisíveis, que fazem tudo o que é possível para garantir alguns segundos de fama repentina e instantânea. Não há fama que permaneça diante de um país que se alimenta das contradições e vulnerabilidades sociais. Imperdível e necessário.







