Adaptar o livro de Fernando Gabeira para o cinema já era, por si só, um desafio arriscado: como transformar uma obra que mistura relato pessoal e análise política em narrativa dramática sem cair em maniqueísmos? Bruno Barreto encara essa tarefa em O Que é Isso, Companheiro? e entrega um filme que busca o equilíbrio entre a memória de um período sombrio da história brasileira e a humanização de seus personagens, ainda que não escape de algumas concessões.
O filme acompanha Fernando (Pedro Cardoso) e César (Selton Mello), jovens que mergulham na luta armada contra a ditadura militar. O sequestro do embaixador dos Estados Unidos, Charles Burke Elbrick (Alan Arkin), surge como a ação mais ousada do grupo, servindo de fio condutor para refletir sobre escolhas pessoais, riscos e contradições ideológicas. Barreto não se limita ao retrato heroico ou condenatório: prefere explorar a ambiguidade de personagens que, em maior ou menor grau, agem sob pressão de um tempo de desesperança.

Logo nas primeiras cenas, o diretor já sinaliza sua proposta estética ao mesclar imagens documentais com a encenação ficcional. Esse recurso cria uma ponte entre o passado e a reconstrução cinematográfica, reforçando a ideia de que o cinema não pode oferecer uma verdade absoluta, mas sim perspectivas sobre a realidade. Esse gesto é significativo, pois revela a consciência de que a memória histórica é sempre disputada.
Se por um lado a opção de humanizar tanto militantes quanto militares e o próprio embaixador amplia a complexidade da narrativa, por outro gera debates sobre até que ponto essa abordagem corre o risco de relativizar responsabilidades. A obra, no entanto, parece consciente desse dilema: ao invés de justificar atitudes, aposta em mostrar como cada personagem se movia em meio a medos, afetos e dilemas morais. Nesse ponto, a atuação contida de Alan Arkin e o nervosismo de Pedro Cardoso se destacam, reforçando esse jogo de tensões.
O longa também não se furta de encenar momentos de tensão cinematográfica. As perseguições, os embates dentro do grupo, o convívio forçado entre sequestradores e sequestrado — tudo isso mantém a narrativa em movimento e lembra que estamos diante de um thriller político. Mas, ao mesmo tempo, Barreto faz questão de colocar pausas intimistas, como os diálogos entre Fernando e Maria (Fernanda Torres), que traduzem os dilemas internos de quem se via dividido entre ideologia e sobrevivência.

Tecnicamente, O Que é Isso, Companheiro? se destaca pelo cuidado com a reconstituição de época, pela fotografia que oscila entre o calor da rua e o frio dos porões, e pela trilha sonora que equilibra melancolia e tensão. Ainda que, em alguns momentos, o tom flerte com o didatismo — especialmente ao inserir frases de efeito ou explicações quase literais —, o filme consegue manter uma coerência estética que potencializa a força de sua narrativa.
Ao fim, fica a sensação de que O Que é Isso, Companheiro? não pretende ser a versão definitiva sobre o sequestro de Elbrick nem sobre os anos de chumbo, mas sim um exercício de memória. Um filme que provoca mais perguntas do que respostas e que, por isso mesmo, ainda hoje tem relevância. Minha experiência foi de imersão em uma obra que equilibra coragem e cautela, emoção e reflexão. Um registro que, apesar das fragilidades, merece sua posição como um dos marcos do cinema político brasileiro.




