Quase vinte anos depois, O Diabo Veste Prada 2 entende exatamente por que o original permaneceu tão vivo no imaginário popular. Em vez de apenas apostar na nostalgia, a sequência encontra relevância ao transportar Miranda Priestly para um cenário completamente diferente daquele dominado pelas grandes revistas impressas dos anos 2000. O glamour continua ali, mas agora acompanhado por um olhar mais melancólico sobre um mercado em decadência.
A trama acompanha Miranda tentando manter a relevância da Runway em meio à crise do jornalismo e à transformação digital que engoliu a indústria editorial desde 2006. Ao mesmo tempo, Emily surge em uma posição de poder dentro do universo da moda, criando um embate particularmente divertido entre duas mulheres acostumadas a controlar tudo ao redor. O roteiro entende que o verdadeiro atrativo da franquia nunca foi apenas a moda, mas sim as dinâmicas de poder entre personagens extremamente competentes.

O Diabo Veste Prada 2 é menos explosivo e caricatural que o primeiro filme. A direção prefere um tom mais sóbrio, quase refletindo o desgaste daquele universo antes tão vibrante. Isso aparece inclusive na fotografia, que abandona parte das cores marcantes do original por uma estética mais fria e discreta. Em alguns momentos, faz falta aquele exagero visual quase operístico que ajudava a transformar Miranda em uma figura tão intimidante quanto fascinante, mas a mudança também conversa com o estado emocional da narrativa.
Meryl Streep continua absolutamente magnética. Mesmo sem precisar repetir todos os trejeitos que eternizaram Miranda Priestly, a atriz mantém uma presença hipnotizante em cena, transmitindo autoridade apenas com um olhar ou uma pausa. Anne Hathaway retorna mais madura, trazendo uma Andy Sachs que parece carregar as marcas do mercado em que escolheu permanecer. Já Emily Blunt talvez seja quem mais se diverte aqui, aproveitando a evolução de Emily para entregar algumas das melhores cenas do filme.
O longa também acerta ao tratar o universo da moda não apenas como estética, mas como parte de uma engrenagem maior ligada à comunicação, influência e consumo. Há um desconforto interessante na forma como o roteiro aborda a perda de espaço do jornalismo tradicional, especialmente para quem acompanha de perto as mudanças recentes da mídia. Em vários momentos, a sequência funciona quase como uma sátira amarga sobre um mercado tentando sobreviver enquanto o mundo muda mais rápido que ele consegue alcançar.

Ainda que a comédia esteja mais contida, o texto preserva diálogos afiados e pequenas alfinetadas deliciosas. O filme sabe exatamente quando usar referências ao original sem transformar tudo em uma sucessão de fan services vazios. Os retornos de personagens clássicos acontecem de maneira natural, como reencontros com velhos conhecidos que seguiram suas vidas, em vez de simples aparições calculadas para arrancar aplausos.
O Diabo Veste Prada 2 entende que crescer também significa mudar de tom. Talvez lhe falte um pouco da energia quase caótica do primeiro longa, mas sobra inteligência ao atualizar essas personagens para um novo momento de suas vidas e da história. Entre desfiles, disputas corporativas e reflexões sobre relevância, o filme encontra espaço para divertir e, ao mesmo tempo, discutir um mundo em transformação. Uma continuação elegante, madura e muito mais interessante do que parecia possível tantos anos depois.





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