Dolly: A Boneca Maldita

(2025) ‧ 1h23

28.04.2026

Entre máscaras de porcelana e traumas: O horror perturbador de "Dolly"

“Chase leva sua namorada Macy em uma trilha na floresta para surpreendê-la com um pedido de casamento, mas são atacados por uma pessoa vestida de boneca.”

Escrito por Rod Blackhurst e Brandon Weavil, dirigido por Blackhurst, baseado em seu curta metragem de 2022, Babygirl, com cinematografia de Justin Derry, trilha sonora de Justin Oakey, e estrelado Fabianne Therese, Seann William Scott, Max Lindsey, e Ethan Suplee, Dolly: A Boneca Maldita é um é um terror independente e ousado, que transita entre o slasher, sobrevivência, e psicológico, com elementos conceituais, e fortes referências a obras clássicas do gênero.

  • Ugga-Mugga!

“Habitantes dos cantos escuros das florestas mais densas, sejam todos muito bem-vindos à última trilha de suas vidas…”

Chase é um pai solteiro, que pretende se casar com Macy, a sua namorada, e que para pedir a sua mão, a leva em uma trilha por uma região montanhosa que costumava frequentar quando jovem. Ao longo do caminho, percebem algumas bonecas espalhadas pela mata, mas de maneira descontraída lidam bem com a situação e seguem em direção ao mirante. Chegando no local, apreciam a bela vista, no entanto, quando o pedido de casamento está prestes a acontecer, uma suave música os interrompe. Curioso, Chase adentra a floresta para verificar o que está acontecendo, mas é atacado por uma figura perturbadora com o rosto coberto por uma máscara de porcelana. Momentos depois, preocupada, Macy vai atrás de seu namorado, mas, é sequestrada pela pessoa vestida de boneca, e levada para uma casa isolada, para ser sua nova filha.

Após a perda de sua mãe, “Dolly” faz uma cerimônia para ela em meio a floresta, na qual vive isolada em uma residência muito semelhante a uma casa de bonecas. Ela é uma mulher muito forte, que se veste como uma de suas bonecas (roupa de pano e máscara de porcelana), além disso, demonstra também comportamentos de alguém com profundos problemas mentais, e até mesmo neuro divergência.

Dolly: A Boneca Maldita é uma experiência de horror interessante, uma produção independente, com identidade, que busca estabelecer de maneira artística uma estética única e pessoal, com alguns recursos visuais e narrativos conceituais, e que aborda temas pesados, proporcionando uma obra perturbadora. E não, não é um filme sobre bonecas.

  • Não saia da trilha…

De maneira geral é um filme muito competente, que mexe com os seus sentimentos, proporcionando variadas sensações, possui discussões rasas, mas que apresenta temas interessantes, que te prende na poltrona, e não te faz desgrudar os olhos da tela por nada.

Vamos à análise.

A história é contada através de capítulos, cada um dedicado a algum aspecto importante, e reforçando a construção da tensão, do suspense, e do horror experienciado pelos personagens.

E a todo o tempo temos a dualidade entre certo e errado, e do bem e mal acontecendo, gerando contrapontos perspicazes.

Dentre os temas propostos pela obra, temos desde relações familiares não ortodoxas (pai solteiro buscando casar novamente) às completamente disfuncionais (violenta e doentia), isolamento (geográfico e social), indivíduos com necessidades especiais, doenças mentais e problemas psicológicos, assim como conceitos comportamentais e sociológicos (como pessoas em determinadas condições, possuindo determinados problemas, desenvolvem seu cotidiano, agem com os seus e com os de fora de seu convívio habitual).

Já em relação aos elementos visuais, é um filme esteticamente impecável, com uma “aura” vintage concedido pela filmagem em 16mm assim como pela pós-produção. A direção e cinematografia reforçam essa estética entre aspas “amadora” e experimental encontrada em produções setentistas. Em certos momentos específicos possui cenas surrealistas que saltam aos olhos.

Os cenários, paisagens e figurino foram muito bem pensados (apesar de que no quesito paisagem poderiam ter ido um pouco mais além), proporcionando uma imersão profunda.

Se tratando de violência e efeitos práticos, Dolly é incrível, não apenas pelo valor do choque, mas, também, por trazer de maneira competente um realismo macabro à tela.

A principal referência cinematográfica é certamente O Massacre da Serra-Elétrica, devido também ao aspecto “Exploitation” presente não apenas no título em questão, mas, “explorada” de maneira exaustiva ao longo da década de 1970, quando o mesmo fora lançado.

Além disso, possui uma cena que faz referência direta ao filme Sexta-Feira 13: Parte 2.

Além disso, na minha opinião, existe um pouco de Noites Brutais (2022), na maneira que o conceito de ficar preso em casa foi executado. Já nos ataques em meio à mata, me lembraram do filme Pânico na Floresta (2003), e tanto nos momentos finais, quanto na última cena, o humor, relacionado a figura da polícia, me fez lembrar do filme Cabana do Inferno (2002).

Como pontos negativos, eu diria que em determinados momentos, as atuações não condizem com o que supostamente deveria estar acontecendo, seja parecendo desinteressada, ou por uma percepção do espectador, – Quem agiria assim nessa situação? – mas, que não necessariamente estragam a experiência, e sim, adicionam uma camada a mais de “estranheza” ou “esquisitice” ao filme. Somado a isso, alguns absurdos (falhas) narrativos, ou furos no roteiro, se apresentando como uma conveniência para o andar da história, – sob um olhar crítico é perceptível, mas, não altera a diversão.

* Um adendo, com exceção de algumas poucas cenas em que um smartphone é utilizado, a tecnologia moderna ao longo do filme é praticamente nula. Se tivessem solucionado esse ponto, poderiam ter criado um filme, até certo ponto, atemporal.

Dolly: A Boneca Maldita é um bom entretenimento, que atua em diferentes subgêneros de maneira homogênea, apresenta temas e conceitos interessantes, e faz à sua maneira homenagens a algumas obras do passado. Devido ao terror proporcionado, o empenho artístico, os momentos de ousadia, e o equilíbrio entre clichês, baixo orçamento e originalidade, esse filme ganha uma nota 3,5 de 5.

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AUTOR

Pedro Fonseca

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