Tempo de Guerra

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11.04.2025

"Tempo de Guerra": A urgência como linguagem

Tempo de Guerra não é um filme de guerra qualquer. Co-dirigido por Alex Garland e Ray Mendoza, o longa se ancora em uma vivência real — a do próprio Mendoza — para entregar uma experiência cinematográfica que beira o documental. A ambientação é seca, precisa e sem floreios, mergulhando o espectador no caos da Batalha de Ramadi com uma visceralidade perturbadora. É uma obra que não busca explicar, mas sim fazer sentir: medo, tensão, confusão, e o peso esmagador de cada segundo em combate.

A primeira meia hora é um exercício de paciência e inquietação. Soldados em vigília, olhos nas janelas, dedos no gatilho, ouvindo o silêncio da cidade ocupada como quem espera o estouro de uma tempestade. E ela vem. Não como clímax, mas como uma sucessão de eventos desordenados, imprevisíveis e cruéis. A narrativa não obedece a um arco clássico — ela pulsa em tempo real, como a memória de quem esteve lá.

Há algo de brutalmente honesto em Tempo de Guerra, mas também algo desconcertante. O filme não se preocupa em oferecer contexto político, histórico ou ético. A guerra aqui não é explicada, apenas apresentada em sua forma mais crua. E isso pode ser tanto uma virtude quanto uma limitação. Ao evitar qualquer posicionamento, o filme abre espaço para a imersão total, mas também corre o risco de parecer indiferente às vidas que retrata.

Quando os tiros começam e o abrigo deixa de ser seguro, Tempo de Guerra se transforma num pesadelo labiríntico. Fragmentos de corpos, ordens gritadas, evacuações falhas, tudo filmado com uma proximidade claustrofóbica e uma fidelidade atordoante. O som tem papel central — explosões, helicópteros, respirações ofegantes. E quando tudo silencia, o que resta é a espera por mais caos. Uma guerra onde a pausa também é violência.

O realismo técnico é impressionante, mas o impacto emocional nem sempre acompanha. O filme se mantém em um registro tão objetivo, tão preso ao factual, que por vezes parece se distanciar de sua própria humanidade. O que sentimos pelos soldados não é empatia construída pela dramaturgia tradicional, mas uma reação instintiva à sua vulnerabilidade diante do imprevisível. Eles não são heróis ou vítimas: são corpos em estado de alerta, como peças de um jogo cujas regras já não importam.

A escolha de exibir imagens reais dos soldados ao final — lado a lado com os atores — soa, no mínimo, questionável. Se a intenção era humanizar a experiência, o efeito é inverso: aproxima-se mais do reality show do que do tributo. Ainda mais quando vemos fotos da família iraquiana retratada no filme com os rostos desfocados — não como sujeitos, mas como partes apagadas de um cenário traumático.

Mesmo assim, Tempo de Guerra deixa sua marca. É um filme que se impõe não por sua mensagem, mas por sua forma. Um “show de força”, como dizem os próprios personagens. Seu maior trunfo talvez esteja aí: em traduzir a urgência da sobrevivência com brutal precisão, mesmo que isso signifique abrir mão de explicações, contextos e até de uma conclusão tradicional. O horror, afinal, fala por si.

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AUTOR

Felipe Fornari

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