A Estrela Cadente

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14.05.2024

“A Estrela Cadente” lembra o nonsense e noir de Aki Kaurismaki e é um bom filme para quem gosta de pantomimas tragicômicas.

A Estrela Cadente, da dupla belga Dominique Abel e Fiona Gordon, é um prato cheio para fãs do estilo nonsense e noir do finlandês Aki Kaurismäki, trazendo uma tragicomédia, com cenários e atuações focadas em técnicas teatrais. O aspecto de palco, trazendo também cenas com danças em ambientes fechados, é bastante simples, com uma pitada de apatia e exagero de alguns personagens. São as atuações que tiram quem assiste de uma lógica do real e nos faz embarcar em uma história que seria banal se não fossem as performances.

Boris (Dominique Abel) é um ex-ativista/guerrilheiro que há mais de três décadas se camufla como bartender do Estrela Cadente, bar que mantém com a companheira Kayoko (Kaori Ito), até que uma das suas vítimas sobrevivente o encontra e deseja vingança. O bartender escapa de uma primeira tentativa de assassinato – o homem, Georges (Bruno Romy), é um desastre como atirador, com uma mão mecânica que sempre se atrapalha em ação – e sai em busca de algum tipo de duplo ou sósia que possa substítui-lo. Ele, Kayoko e Tim (Philippe Martz), o seu capanga, saem pelas ruas e encontram Dom (também Dominique Abel), que parece estar sozinho e depressivo. Aí, com a captura do homem, entram em cenas todas as trapalhadas para transformar Dom em Boris e vice-versa: a boa e velha troca de corpos, famosa no cinema, só que aqui bem menos fantasiosa mas, mesmo assim, engraçada.

A grande sacada de A Estrela Cadente é justamente essa troca de vidas que faz os dois homens saírem de seus lugares comuns com rotinas entediantes, seja como fugitivo ou um homem comum vivendo um luto. Dom perdeu a filha recentemente e  está separado da esposa, a detetive particular Fiona (Fiona Gordon), que não sabe bem como lidar com essa perda e vive um momento de fracasso também na profissão. Dom acaba vendo uma possibilidade ao passar a viver a vida de Boris, já Fiona, desconfiada pelo sumiço, segue seu faro para investigar o que aconteceu com o marido.

O decorrer da história são cenas de erros e acertos. As que são filmadas dentro do Estrela Cadente são especialmente divertidas, com danças e conversas peculiares com clientes do bar e a vida privada do casal Boris/Dom e Kayoko, que começa a confundir os dois homens. Já Boris fica um pouco apagado no roteiro, retornando no final para retomar seu posto de marido e fugitivo. O filme, que foi elogiado no festival de Locarno, de 2023 – um evento mais voltado para o cinema menos comercial e narrativo –, é uma boa pedida para quem gosta de atuações que lembram pantomimas e histórias simples, porém divertidas.

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AUTOR

Emanuela Siqueira

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