A Maravilhosa Árvore Encantada

(2026) ‧ 1h50

Crescer sem deixar a magia para trás

Felipe Fornari

Existe uma diferença enorme entre fazer um filme infantil e enxergar o mundo como uma criança. A Maravilhosa Árvore Encantada pertence felizmente ao segundo grupo. Adaptando para o presente o universo criado por Enid Blyton, o longa constrói uma fantasia que não trata a imaginação como simples decoração para aventuras coloridas. A magia está justamente na possibilidade de recuperar algo que a rotina, as responsabilidades e as telas parecem apagar aos poucos: o prazer de descobrir o mundo ao lado de quem amamos.

Tim e Polly chegam ao campo acompanhados pelos três filhos depois de uma mudança radical de vida. Ele cuida da família em tempo integral; ela abandona um emprego como engenheira ao perceber os limites éticos da tecnologia que ajudava a desenvolver. Beth não larga o celular, Joe prefere os videogames e a pequena Fran praticamente parou de falar. O ponto de partida poderia facilmente resultar em mais uma crítica simplista à tecnologia, mas o roteiro prefere olhar para aquilo que existe por trás das telas: uma família que continua se amando, embora tenha desaprendido a realmente estar junta.

É Fran quem abre a porta para o extraordinário ao encontrar Silky e chegar até a árvore encantada escondida na floresta. Ali vivem figuras como Moonface, Saucepan Man e Dame Washalot, enquanto uma interminável escada conduz as crianças a mundos diferentes. O design de produção transforma essas descobertas em um delicioso imaginário de conto de fadas, com uma estética deliberadamente artesanal e ligeiramente retrô. Há criaturas estranhas, lugares impossíveis e invenções deliciosamente absurdas, mas nada parece existir apenas para impressionar visualmente.

Parte fundamental desse encanto está na maneira como os adultos abraçam o absurdo. O elenco interpreta aquelas figuras excêntricas sem ironizar o material ou procurar cumplicidade com os pais na plateia às custas das crianças. Nicola Coughlan, Nonso Anozie, Jessica Gunning, Jennifer Saunders, Rebecca Ferguson e tantos outros entram naquele universo acreditando sinceramente em suas regras. Andrew Garfield e Claire Foy fazem o mesmo com Tim e Polly, encontrando humanidade em dois pais que também estão tentando descobrir como crescer junto com os filhos.

As aventuras, por sua vez, são construídas a partir de uma lógica genuinamente infantil. Desejos realizados podem se transformar em problemas, aniversários escondem consequências inesperadas e criaturas aparentemente assustadoras podem ser derrotadas de maneiras ridículas. O roteiro compreende que perigo e diversão não precisam ser opostos, mantendo alguma tensão sem transformar a fantasia em algo excessivamente sombrio. Mais importante, cada obstáculo exige que Beth, Joe e Fran abandonem um pouco do individualismo com que começaram a história.

É aí que A Maravilhosa Árvore Encantada encontra uma delicadeza que o coloca acima de muitas aventuras familiares contemporâneas. Aos poucos, aqueles mundos extraordinários deixam de ser necessariamente mais atraentes do que cozinhar, trabalhar, cantar ou simplesmente rir em família. A fantasia não surge como fuga da realidade, mas como caminho de volta para ela. E existe uma melancolia muito bonita na percepção de que crescer inevitavelmente significa deixar algumas coisas para trás, sem que isso obrigue ninguém a abandonar completamente a criança que já foi.

Encantador sem ser açucarado e nostálgico sem permanecer preso ao passado, A Maravilhosa Árvore Encantada recupera o espírito dos contos infantis que parecem maiores do que o próprio mundo quando os encontramos pela primeira vez. Seu universo fantástico diverte, o elenco se entrega deliciosamente à brincadeira e a produção visual merece ser explorada em cada detalhe, mas é a simplicidade de sua mensagem que permanece. Talvez a magia da infância realmente seja esquecida com o tempo. De vez em quando, porém, aparece uma história capaz de nos fazer lembrar exatamente como ela parecia.

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