A Matriarca

(2025) ‧ 1h17

21.05.2025

"A Matriarca": Segredos no coração do Recôncavo

Ao reunir uma família em torno do aniversário de 90 anos de sua matriarca, A Matriarca estabelece rapidamente o clima de reconciliação e celebração que costuma habitar encontros familiares. Mas o filme, dirigido por Lula Oliveira, não se contenta com os rituais de afeto: a morte repentina da homenageada vira o ponto de partida da narrativa e abre espaço para um mergulho nos silêncios e segredos que atravessam gerações. O que era confraternização, torna-se confrontação.

A trama acontece em Itabaína, cidade fictícia ancorada nas paisagens e tradições do Baixo Sul baiano, com destaque para expressões culturais como os Zambiapungas, Os Caretas e o Congado de Cairu. Essas manifestações não funcionam apenas como pano de fundo, mas ajudam a compor uma identidade coletiva que pulsa por trás dos dramas íntimos dos personagens. É como se o próprio território guardasse as tensões que a família tenta varrer para debaixo do tapete.

Com um elenco majoritariamente teatral, a atuação é marcada por intensidade e entrega, mas ainda assim bastante teatral. Caco Monteiro confere presença e densidade ao seu papel, sustentando com firmeza os momentos mais dramáticos. Outros nomes como Luciana Souza e Aicha Marques também contribuem para um retrato coral em que cada personagem carrega sua própria ferida. A escolha por rostos menos conhecidos do grande público também reforça o compromisso do filme com uma representação local e autêntica.

O roteiro, no entanto, por vezes tropeça ao tentar equilibrar tantos conflitos. Há momentos em que o mistério é menos envolvente do que o filme parece acreditar, e certas revelações surgem de forma abrupta, sem o devido preparo narrativo. Ainda assim, há um cuidado notável na construção dos diálogos e no uso simbólico dos ritos e crenças, em especial aqueles relacionados à ancestralidade e aos orixás, com destaque para Iansã — figura evocada não apenas no enredo, mas também no espírito tempestuoso da própria história.

Visualmente, A Matriarca é de uma bela surpresa. A fotografia valoriza os casarões coloniais, as florestas úmidas e as cores vibrantes das manifestações populares, compondo uma estética que se alia ao emocional dos personagens. Há ecos de obras como Cinema, Aspirinas e Urubus, filme que também explora o tempo como fantasma e a memória como terreno movediço.

Com ênfase na cultura baiana, A Matriarca entrega uma narrativa afetiva e inquieta, capaz de provocar reflexões sobre pertencimento, legado e identidade. Apesar de alguns desequilíbrios na condução do suspense, o longa revela a força de um cinema regional que não teme suas raízes — pelo contrário, as transforma em motor de criação. É um filme que, como sua protagonista ausente, impõe respeito mesmo em silêncio.

ONDE ASSISTIR

AUTOR

Felipe Fornari

OUTRAS CRÍTICAS

Dupla Perigosa

Dupla Perigosa

Dupla Perigosa chega como uma daquelas produções assumidamente feitas para o streaming, sem grandes pretensões além de entregar ação, humor e um pouco de nostalgia. O filme resgata o espírito das comédias de ação dos anos 1980 e 1990, apostando em violência...

Caricia Fatal

Caricia Fatal

Dirigido por Lewis Milestone, Carícia Fatal é uma das adaptações cinematográficas mais impactantes de uma obra literária. Baseado no romance de John Steinbeck, o filme mergulha no desespero e na fragilidade humana durante a Grande Depressão, oferecendo uma narrativa...

O Drama

O Drama

O Drama mergulha de cabeça nas tensões silenciosas que podem surgir quando a confiança é abalada, mesmo nos momentos que deveriam ser de celebração. Às vésperas do casamento, o casal protagonista se vê diante de segredos que ameaçam não apenas o grande dia, mas todo o...