Ao reunir uma família em torno do aniversário de 90 anos de sua matriarca, A Matriarca estabelece rapidamente o clima de reconciliação e celebração que costuma habitar encontros familiares. Mas o filme, dirigido por Lula Oliveira, não se contenta com os rituais de afeto: a morte repentina da homenageada vira o ponto de partida da narrativa e abre espaço para um mergulho nos silêncios e segredos que atravessam gerações. O que era confraternização, torna-se confrontação.
A trama acontece em Itabaína, cidade fictícia ancorada nas paisagens e tradições do Baixo Sul baiano, com destaque para expressões culturais como os Zambiapungas, Os Caretas e o Congado de Cairu. Essas manifestações não funcionam apenas como pano de fundo, mas ajudam a compor uma identidade coletiva que pulsa por trás dos dramas íntimos dos personagens. É como se o próprio território guardasse as tensões que a família tenta varrer para debaixo do tapete.

Com um elenco majoritariamente teatral, a atuação é marcada por intensidade e entrega, mas ainda assim bastante teatral. Caco Monteiro confere presença e densidade ao seu papel, sustentando com firmeza os momentos mais dramáticos. Outros nomes como Luciana Souza e Aicha Marques também contribuem para um retrato coral em que cada personagem carrega sua própria ferida. A escolha por rostos menos conhecidos do grande público também reforça o compromisso do filme com uma representação local e autêntica.
O roteiro, no entanto, por vezes tropeça ao tentar equilibrar tantos conflitos. Há momentos em que o mistério é menos envolvente do que o filme parece acreditar, e certas revelações surgem de forma abrupta, sem o devido preparo narrativo. Ainda assim, há um cuidado notável na construção dos diálogos e no uso simbólico dos ritos e crenças, em especial aqueles relacionados à ancestralidade e aos orixás, com destaque para Iansã — figura evocada não apenas no enredo, mas também no espírito tempestuoso da própria história.

Visualmente, A Matriarca é de uma bela surpresa. A fotografia valoriza os casarões coloniais, as florestas úmidas e as cores vibrantes das manifestações populares, compondo uma estética que se alia ao emocional dos personagens. Há ecos de obras como Cinema, Aspirinas e Urubus, filme que também explora o tempo como fantasma e a memória como terreno movediço.
Com ênfase na cultura baiana, A Matriarca entrega uma narrativa afetiva e inquieta, capaz de provocar reflexões sobre pertencimento, legado e identidade. Apesar de alguns desequilíbrios na condução do suspense, o longa revela a força de um cinema regional que não teme suas raízes — pelo contrário, as transforma em motor de criação. É um filme que, como sua protagonista ausente, impõe respeito mesmo em silêncio.







