A Missão

(1986) ‧ 2h05

02.03.1987

Conflito, fé e espetáculo em “A Missão”

A Missão parte de um cenário poderoso: a Mata Atlântica do século XVIII, onde a fé católica, a ambição colonial e o destino dos povos originários colidem com uma dramaticidade sem igual. Baseado em eventos históricos, o filme dirigido por Roland Joffé recria com detalhamento impressionante o conflito em torno das missões jesuíticas construídas para converter e proteger os guaranis. No centro da narrativa estão o idealismo do Padre Gabriel e a busca por redenção de Rodrigo Mendoza, um ex-mercador de escravos. O pano de fundo é épico, mas o impacto emocional oscila.

Logo nos primeiros minutos, A Missão impressiona pelo visual. A fotografia premiada de Chris Menges transforma a mata num lugar sagrado e ameaçador, com cachoeiras monumentais e luz filtrada pelas copas das árvores. É esse espaço quase mítico que Gabriel (Jeremy Irons) adentra com serenidade, carregando apenas sua fé e um oboé. A cena de sua aproximação com os guaranis — através da música — é uma das mais marcantes do filme. Mas, a partir daí, a construção do personagem pouco avança além da imagem de um mártir compassivo.

Rodrigo Mendoza (Robert De Niro), por outro lado, deveria ser o motor emocional da trama. O arco de transformação de um traficante de pessoas em defensor dos oprimidos tem tudo para comover, mas o roteiro não lhe dá tempo ou profundidade suficientes. Sua culpa pelo assassinato do irmão é tratada de forma apressada, e sua entrada na vida religiosa parece mais simbólica do que verdadeira. A interpretação de De Niro não ajuda: apesar do comprometimento físico, sua presença soa deslocada em meio ao tom contemplativo do filme.

Quem realmente se destaca é o Cardeal Altamirano, vivido por Ray McAnally. Ele encarna o dilema político da Igreja: proteger os guaranis significaria peitar o poder colonial português, mas ceder os entregaria à escravidão. Sua angústia é visível, mesmo sabendo que sua missão ali é apenas carimbar uma decisão já tomada. Ele representa a face mais complexa do filme — não a espiritual, mas a institucional, onde interesses terrenos falam mais alto do que os princípios cristãos.

A direção de Joffé aposta mais na força simbólica dos eventos do que na vivência íntima dos personagens. A Missão funciona melhor como denúncia do colonialismo e de sua aliança com o poder eclesiástico do que como drama pessoal. A escolha de não oferecer uma catarse heroica — personagens morrem sem mudar o curso da história — é corajosa, mas também dificulta a conexão emocional. O que resta é uma sensação de impotência, reforçada pelo contraste entre a beleza da mise-en-scène e a brutalidade dos desfechos.

Ainda assim, há méritos inegáveis. A trilha sonora de Ennio Morricone, com sua mistura de elementos indígenas, barrocos e corais, carrega o filme nas costas em muitos momentos. Ela transforma cenas simples em momentos de elevação espiritual, e talvez seja o aspecto mais interessante de A Missão. Há também um cuidado raro com a representação dos povos indígenas — ainda que romantizados, estão no centro do conflito e não apenas como figurantes da história europeia.

No fim, A Missão é um filme grandioso que tenta dizer muito, mas entrega menos do que promete em termos de humanidade. É belo, relevante e digno de reverência por sua ambição e denúncia, mas não atinge todo o potencial de seus temas. Em vez de um épico que emociona, é um espetáculo que se admira à distância — como uma pintura em uma igreja barroca: impactante, mas fria.

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AUTOR

Felipe Fornari

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