A Morte de Robin Hood

(2026) ‧ 2h02

A redenção depois da lenda

Felipe Fornari

Poucos personagens parecem condenados a retornar tantas vezes ao cinema quanto Robin Hood. Ao longo das décadas, o arqueiro de Sherwood foi transformado em herói romântico, aventureiro, líder revolucionário e símbolo de justiça popular. A Morte de Robin Hood, porém, não demonstra qualquer interesse em alimentar esse imaginário. Michael Sarnoski faz justamente o oposto: desmonta o mito para encontrar o homem escondido sob a lenda, entregando um filme contemplativo, melancólico e surpreendentemente íntimo sobre culpa, violência e a possibilidade (ou não) de redenção.

Desde os primeiros minutos, fica claro que esta não é uma história sobre feitos heroicos. Robin, interpretado por Hugh Jackman, surge envelhecido, isolado e profundamente marcado pelos próprios atos. As histórias que o transformaram em uma figura lendária são tratadas quase como exageros convenientes, enquanto a realidade revela alguém perseguido por inimigos que guardam lembranças muito menos nobres de suas ações. Sarnoski revisita o personagem como Clint Eastwood fez com os pistoleiros de Os Imperdoáveis, perguntando quanto sangue existe por trás da construção de qualquer herói.

Depois de uma batalha brutal que o deixa gravemente ferido, Robin encontra abrigo em um remoto priorado administrado por uma misteriosa religiosa, vivida por Jodie Comer. O isolamento da ilha cria uma atmosfera quase espiritual, como se aquele espaço existisse entre o mundo dos vivos e um purgatório reservado aos homens incapazes de escapar do próprio passado. É ali, longe dos campos de batalha, que o filme desacelera para refletir sobre quem Robin é quando já não resta ninguém para aplaudir seus feitos.

Essa mudança de perspectiva aproxima A Morte de Robin Hood muito mais de um faroeste crepuscular do que de uma aventura medieval tradicional. Sarnoski, que já havia subvertido expectativas em Pig: A Vingança, demonstra novamente pouco interesse pelas convenções do gênero. A tensão não nasce da espera por um grande confronto, mas da sensação constante de que a violência sempre encontra aqueles que passaram a vida recorrendo a ela. O diretor constrói esse clima com enorme paciência, valorizando os silêncios, as paisagens da Irlanda do Norte e a fotografia que acompanha o estado emocional do protagonista.

Hugh Jackman entrega uma das interpretações mais fortes de sua carreira recente. Existe uma evidente proximidade entre este Robin Hood e o Logan que interpretou anos atrás: homens envelhecidos, cansados e obrigados a confrontar tudo aquilo que deixaram para trás. Mas Jackman evita repetir fórmulas, encontrando aqui uma vulnerabilidade diferente, marcada menos pelo desgaste físico do que pelo peso moral carregado durante toda uma existência. Ao seu redor, Jodie Comer acrescenta humanidade e mistério à narrativa, enquanto os coadjuvantes reforçam a sensação de que Robin finalmente encontrou pessoas que o enxergam além da fama.

A grande qualidade do roteiro está em nunca oferecer respostas fáceis. Em vez de transformar seu protagonista em um mártir arrependido ou em um herói injustiçado, o filme reconhece que suas escolhas produziram consequências irreversíveis. A violência que antes parecia justificável sob a bandeira da rebeldia ganha novas camadas quando observada à distância, obrigando Robin a encarar a possibilidade de que boa parte de sua reputação tenha sido construída sobre uma necessidade quase compulsiva de lutar. Essa releitura dialoga de maneira interessante com a forma como figuras históricas e lendárias continuam sendo reinterpretadas pelo olhar contemporâneo.

Ao final, A Morte de Robin Hood não pretende reinventar o personagem por meio de grandes reviravoltas, mas pela honestidade com que encara seu legado. É um filme que troca o espetáculo pela introspecção, a aventura pela reflexão e o triunfo pela aceitação das próprias falhas. Em vez de perguntar se Robin Hood ainda merece ser celebrado, Michael Sarnoski faz uma questão muito mais interessante: quanto custa buscar redenção depois que a lenda já foi escrita? É justamente nessa resposta amarga e profundamente humana que reside a força desta excelente releitura.

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