A Mulher Oculta

(1938) ‧ 1h36

Mistério, humor e espionagem sobre trilhos

Felipe Fornari

Em A Mulher Oculta, Alfred Hitchcock transforma uma viagem de trem em um dos suspenses mais engenhosos e divertidos de sua fase britânica. Iris Henderson está prestes a retornar para casa quando conhece a simpática senhora Froy durante uma parada forçada em uma pequena hospedaria europeia. As duas voltam a se encontrar no trem, mas, depois de Iris adormecer por alguns instantes, a idosa simplesmente desaparece. O mais inquietante não é apenas sua ausência: todos os passageiros interrogados afirmam que aquela mulher jamais esteve ali, fazendo Iris questionar se pode confiar nas próprias lembranças.

A primeira parte do filme dedica bastante tempo à apresentação dos passageiros antes mesmo de embarcarem, estabelecendo personalidades, interesses e pequenos conflitos que posteriormente ganham importância. Hitchcock constrói praticamente uma comédia de costumes dentro da estalagem, introduzindo inclusive Charters e Caldicott, dois ingleses cuja preocupação quase obsessiva com o críquete produz alguns dos momentos mais engraçados da história. O ritmo inicial é deliberadamente tranquilo, mas essa preparação permite que, uma vez dentro do trem, cada personagem já carregue consigo razões particulares para falar, mentir ou simplesmente evitar qualquer envolvimento.

A partir do desaparecimento de Froy, A Mulher Oculta encontra um equilíbrio extraordinário entre mistério e absurdo. Iris sabe perfeitamente com quem conversou, mas as evidências parecem desaparecer diante dela. O nome escrito no vidro de uma janela surge como confirmação de sua memória apenas para ser apagado quando o trem atravessa um túnel. Pequenas pistas aparecem e desaparecem enquanto os passageiros oferecem versões contraditórias, transformando uma pergunta aparentemente simples — onde está aquela senhora? — em uma conspiração que parece envolver praticamente todo o vagão.

Michael Redgrave oferece a Margaret Lockwood o parceiro perfeito nessa investigação. Gilbert começa como uma presença irritante para Iris, depois aceita ajudá-la mais por curiosidade do que por convicção e progressivamente percebe que existe algo muito mais perigoso acontecendo. A relação dos dois se desenvolve através de provocações e diálogos rápidos, permitindo que o romance surja sem interromper o suspense. É uma dinâmica que Hitchcock já havia explorado em 39 Degraus, mas aqui alcança uma leveza ainda maior, com os protagonistas funcionando tão bem discutindo entre si quanto tentando solucionar o mistério.

A ambientação no trem é decisiva para a eficiência da narrativa. O espaço limitado transforma corredores, compartimentos e vagões-restaurante em peças de um quebra-cabeça no qual qualquer pessoa pode estar escondendo alguma coisa. Hitchcock utiliza essa limitação física a seu favor, criando a impressão de que Iris está cercada por possíveis conspiradores e não possui para onde escapar. Mesmo trabalhando com cenários reduzidos, transparências e miniaturas, o diretor consegue transmitir movimento e ampliar progressivamente a escala da aventura até que aquilo que parecia um desaparecimento inexplicável revela implicações políticas muito maiores.

Quando a espionagem finalmente assume o primeiro plano, o filme abraça sem constrangimento a improbabilidade de sua trama. A informação que precisa atravessar fronteiras está escondida em uma simples melodia memorizada por Froy, solução tão absurda quanto perfeitamente adequada ao universo hitchcockiano. O importante nunca foi a natureza do segredo, mas os perigos provocados por ele. O desfecho intensifica a ação sem abandonar o humor, enquanto personagens anteriormente preocupados apenas com seus próprios interesses precisam escolher como reagir diante de uma ameaça coletiva, dando à aventura uma dimensão política discretamente ligada às tensões europeias do final dos anos 1930.

A Mulher Oculta representa Hitchcock dominando plenamente a mistura de suspense, comédia, romance e espionagem que vinha aperfeiçoando ao longo da década. Se 39 Degraus havia estabelecido muitos dos elementos essenciais dessa fórmula, aqui eles aparecem com uma confiança ainda maior, sustentados por personagens memoráveis e uma narrativa que se torna mais prazerosa quanto mais improvável fica. O desaparecimento de uma senhora aparentemente inofensiva é suficiente para colocar todo um trem sob suspeita e revelar uma conspiração internacional, demonstrando como Hitchcock já sabia transformar uma premissa simples em entretenimento sofisticado sem jamais perder o prazer de brincar com o espectador.

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