A Mulher que Chora

(2026) ‧ 1h15

30.03.2026

Ecos de La Llorona: entre afeto e ausência

A Mulher que Chora, produzido pela Grafo Audiovisual, empresa brasileira, com direção e roteiro do venezuelano George Walker Torres, estreia na próxima semana nos cinemas brasileiros. O filme já está recebendo reconhecimento internacional: a atriz Julia Stockler ganhou o prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante e o Prêmio Bronze de Melhor Filme no Sevilla Indie Film Festival, na Espanha.

A produção é um misto de drama com aspectos do folclore latino-americano, uma vez que possui como pano de fundo a lenda da Mulher que Chora, pouco conhecida entre brasileiras e brasileiros, mas popular nos países de língua espanhola. A lenda de La Llorona provoca medo entre as crianças venezuelanas pela simples possibilidade de se depararem com seu fantasma. No filme é utilizada para abordar questões profundas e atuais, como o protagonismo feminino, a divisão de classes e a xenofobia.

O diretor também destacou que o cenário político recente da Venezuela e a presença crescente de migrantes venezuelanos e venezuelanas no Brasil, em torno de 800 mil, que, de maneira forçada, são obrigados a deixar seu país em busca de melhores condições de vida, influenciaram diretamente a construção do filme. Os Estados Unidos mantêm há décadas inúmeras sanções contra a Venezuela, que proíbem importações, exportações, financiamentos ou transações. Recentemente, esse cenário foi aprofundado com o sequestro do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, ocorrido nas primeiras horas do dia 3 de janeiro deste ano.

Assim, os dramas e as violências perpetradas contra os dois personagens centrais, a empregada doméstica de origem venezuelana, Carmen (Samantha Castillo) e Miguel (Zayan Medeiros) nos convocam a problematizar questões de ordem política, social e econômica nos contextos venezuelano e brasileiro.

Miguel é um menino de apenas 8 anos que, após a separação aparentemente traumática dos pais, passa a viver com sua mãe, Helena (Julia Stockler), no imenso casarão da família, onde vivem sua avó e bisavó. A relação se aprofunda com Carmen, uma migrante venezuelana que trabalha como empregada e cuida da bisavó, que está em condição de letargia, praticamente catatônica.

Com o tempo, Miguel passa a desenvolver com Carmen um vínculo afetivo peculiar, mediado pela lenda da Mulher que Chora. No roteiro, o menino encontra asilo e conforto emocional não nos cômodos da casa de sua família privilegiada e abastada, mas no quarto humilde e pequeno da empregada. Carmen é uma personagem enigmática, envolta em mistérios em relação à sua origem e família. Vinda da Venezuela, ela deixou para trás o próprio filho para migrar para outro país. No Brasil, passa a exercer um papel materno que suscita várias possibilidades de abordagem, pois assume uma persona materno-sensual.

A partir das dificuldades que Miguel possui com sua mãe biológica, forma-se um vínculo particular que impulsiona o menino a reinterpretar sua vida, a violência à qual passa a ser submetido, seja como vítima ou algoz e o convívio com seus familiares, no limiar entre a imaginação e a realidade concreta.

O filme mostra mais do que fala: a direção utiliza a técnica chamada “show, don’t tell”, quando o roteiro apresenta o instante em que os personagens principais criam sua conexão com profunda genialidade e sensibilidade. A liberdade que o diretor confere aos personagens para experimentarem algo fora do comum, do que se espera de uma relação entre o filho da casa grande e a empregada, acaba ressignificando os olhares sobre o próprio processo migratório, reafirmando a premissa de que migrar é um direito inerente a todas as pessoas.

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AUTOR

Daniela de Oliveira Pires

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