Admirável Novo Amor

(2026) ‧ 1h45

Admirável Novo Amor e a difícil tarefa de amar sem respostas

Felipe Fornari

É tentador imaginar que uma relação extraconjugal seja sempre consequência de um casamento fracassado, como se a infidelidade precisasse de uma justificativa simples para fazer sentido. Admirável Novo Amor, segundo longa de ficção de Maria Bäck, prefere desconfiar dessa lógica. Kate tem um marido atencioso, uma filha e uma vida aparentemente estável, mas também mantém há anos um relacionamento amoroso com Andreas. Em vez de transformar esse triângulo em um julgamento sobre fidelidade e caráter, a diretora investiga o desconforto de uma mulher que parece querer preservar tudo o que conquistou sem compreender inteiramente o que procura. O resultado é um drama íntimo que encontra humor justamente nas contradições de seus sentimentos.

A narrativa evita o caminho mais previsível ao não acompanhar o início da traição como se estivéssemos diante de uma paixão proibida recém-descoberta. Quando a história começa a revelar o envolvimento de Kate com Andreas, a relação já ocupa um espaço considerável em sua rotina. Os dois construíram uma intimidade paralela, mantida cuidadosamente separada da vida familiar, até que a possibilidade de afastamento ameaça desmontar o equilíbrio que ela julgava controlar. É nesse momento que o filme encontra seu verdadeiro conflito: não tanto a existência de dois amores, mas a dificuldade de compreender o lugar que cada um ocupa quando já não é possível mantê-los isolados.

Kate tampouco é uma protagonista construída para conquistar nossa simpatia a qualquer custo. Suas inquietações, mudanças de humor e decisões contraditórias podem ser frustrantes, mas Maria Bäck não as transforma em sinais de uma personalidade superficial. Existe algo reconhecível na tentativa da personagem de racionalizar escolhas que, no fundo, escapam ao seu controle. As conversas com outras mulheres, inclusive em um grupo religioso do qual ela não parece compartilhar plenamente as convicções, oferecem perspectivas distintas sobre casamento, desejo e compromisso. O filme não trata essas discussões como um tribunal moral, mas como espaços nos quais diferentes ideias de felicidade entram em conflito sem que nenhuma consiga oferecer uma resposta definitiva.

As atuações ajudam a sustentar essa ambiguidade. Kathrine Thorborg Johansen interpreta Kate com uma inquietação contida, alternando impulsividade e vulnerabilidade sem transformá-la numa heroína romântica convencional. Anders Danielsen Lie confere a Andreas uma presença que ultrapassa sua função de amante, sugerindo uma vida e uma identidade que existem para além do relacionamento. Mas é Simon Sears quem oferece uma das contribuições mais delicadas como Orla, um marido cuja atenção e sensibilidade não o tornam imune às próprias inseguranças. Ao distribuir a empatia entre os três, a diretora evita que o espectador encontre um culpado conveniente para organizar emocionalmente a história.

A forma como o passado e o presente se alternam também merece atenção. As lembranças do caso extraconjugal surgem gradualmente, modificando nossa compreensão da intimidade entre Kate e Andreas e da maneira como ela enxerga o casamento. Ao mesmo tempo, a fotografia utiliza espaços e enquadramentos para traduzir a distância que começa a se instalar entre Kate e Orla, mesmo quando os dois compartilham o mesmo ambiente. A mise-en-scène não precisa sublinhar cada conflito com grandes gestos: basta mostrar como a proximidade física pode coexistir com um afastamento emocional crescente. Essa precisão visual combina com o tom de uma obra interessada menos em escândalos do que nas pequenas rachaduras de uma vida aparentemente organizada.

O humor, por sua vez, impede que o filme se torne excessivamente solene. Entre situações constrangedoras, manifestações físicas da intimidade e referências que aproximam o cotidiano de uma dimensão quase mitológica, Admirável Novo Amor encontra maneiras inesperadas de abordar a vergonha e o desejo. Essa combinação de leveza e desconforto dá personalidade à narrativa, embora o trecho final perca parte da precisão que caracteriza o restante da produção. Ao tentar preservar a complexidade de seus personagens, o roteiro acaba deixando algumas questões menos desenvolvidas do que poderiam ser. Ainda assim, essa falta de fechamento absoluto combina, em certa medida, com uma história que se recusa a organizar sentimentos contraditórios em conclusões fáceis.

O mérito de Maria Bäck está em compreender que o amor não se torna simples apenas porque as pessoas desejam defini-lo, e que a infidelidade não explica, sozinha, tudo aquilo que está errado ou ausente em uma relação. O filme não transforma a liberdade afetiva em solução mágica, tampouco trata o casamento como uma prisão da qual Kate precisa escapar. Seu interesse está na desconfortável possibilidade de que alguém possa amar outras pessoas e, ainda assim, não saber muito bem como conviver consigo mesma. Entre o humor, a melancolia e a recusa em oferecer respostas, Admirável Novo Amor constrói um retrato sensível das contradições adultas, lembrando que amadurecer emocionalmente talvez não seja encontrar a fórmula certa para amar, mas aprender a encarar as consequências daquilo que escolhemos.

ONDE ASSISTIR

OUTRAS CRÍTICAS