Alice Através do Espelho

26.05.2016 │ 15:31

26.05.2016 │ 15:31

Não há como voltar atrás é o tema principal de Alice Através do Espelho, que se aplica também à sua existência enquanto filme. Depois do sucesso de Alice no País das Maravilhas (leia a resenha aqui), em 2010, um dos poucos filmes que ultrapassaram a barreira de $1 bilhão nas bilheterias mundiais, uma sequência era inevitável, mesmo sem a presença de Tim Burton na cadeira de diretor.
Alice Através do Espelho começa em 1874, exatamente de onde o longa anterior parou, com Alice Kingsleigh a bordo do “The Wonder”, o navio do pai, sendo perseguida por navios piratas ao tentar passar, impossivelmente, pelo Estreito de Malaca. Um ano depois do início de sua viagem, Alice volta a Londres, e embora os comentários sejam que ela está mais filha de seu pai que nunca, as coisas mudaram, e ela também.
01AliceAtravesdoEspelho
O bobo pretendente de Alice, Hamish, cuja proposta ela rejeitou, se casou com outra, e agora está ameaçando expulsar a mãe de Alice de sua casa se a garota não desistir do “The Wonder” (alerta de metáfora, já que o País das Maravilhas, em inglês, chama-se Wonderland). Enquanto adolescente, a Inglaterra vitoriana tolerava a ousadia e o espirito livre de Alice (a “muiteza” tão prezada na personagem pelos seus amigos do colorido País das Maravilhas). Mas essas mesmas qualidades dificilmente serão toleradas em uma mulher crescida, e acabam sendo consideradas sintomas de loucura e histeria, e Alice não poderá brigar com o tempo para fazer o relógio andar para trás. Pelo menos não no nosso mundo.
Após ser guiada através de um espelho mágico pela borboleta Absolem (dublada pelo falecido Alan Rickman, nosso eterno Snape, que tem o filme dedicado a ele, como mais uma prova irrevogável do tempo), ela chega ao País das Maravilhas, onde descobre que seu amigo Chapeleiro (Johnny Depp) se afundou em uma espécie de depressão, possivelmente terminal, por sentimentos não resolvidos com seu falecido pai (sentimentos que “espelham” a relação de Alice com o próprio pai, de certa forma). Por esse motivo, ela vai até o castelo do Tempo (Sacha Baron Cohen, o Borat), tentar viajar ao passado e evitar que o pai do Chapeleiro seja morto, mesmo com a as advertências do “vilão” de que “você não pode mudar o passado, mas pode aprender algo com ele”.
ALICE THROUGH THE LOOKING GLASS
A ironia é que qualquer tentativa de Alice reescrever o passado do País das Maravilhas está fadada ao fracasso, mas o mesmo não pode se dizer da adaptação de Linda Woolverton (que também adaptou o primeiro filme). A roteirista consegue transmitir a estranheza tão presente na obra de Lewis Carroll, sem deixar de trazer à tona todas as lições de moral tão presentes no cinema da Walt Disney.
Todo o revisionismo do filme faz com que o ato de adaptação dele – e o esforço de transformar materiais passados, seja o livro de Carroll ou o filme de Tim Burton – seja um dos principais problemas do filme (mas que ele parece consciente disso). O Tempo está (literalmente!) contra Alice, mas suas viagens através do mar de lembranças são esplendorosas e cheias de curiosidades que colaboram no crescimento de sua amizade com o Chapeleiro e toda aquela trupe esquisitona do filme de Burton.
03AliceAtravesdoEspelho
James Bobin, que dirigiu os dois últimos Muppets, não traz um olhar muito inventivo para o mundo de Carroll, mas emula o trabalho visual feito por Burton no filme anterior (e ainda revisita designs não utilizados pelo diretor em outros de seus filmes, como os ajudantes do Tempo saídos de Marte Ataca!), prova que Burton foi uma grande sombra sobre o diretor, mesmo estando na cadeira de produtor.
Praticamente todos os coadjuvantes estão de volta, mas o destaque fica com a Rainha Vermelha, de Helena Bonham Carter, mais insana e espirituosa do que nunca, além do Tempo de Cohen, que rouba a cena enquanto garante que Alice pode finalmente seguir em frente, reconciliar-se com o passado e criar uma nova tradição na sua família (a independência feminina), em novos mares e um novo século, mesmo que isso só aconteça de fato agora, no século XXI.
Nota:

[wpdevart_youtube]yFI3boqguL4[/wpdevart_youtube]

Você também pode gostar…

  • Leia mais
    Operação Sombra - Jack Ryan
    07.02.2014
  • Leia mais
    Welcome to the Blumhouse: Black Box
    08.10.2020
  • Leia mais
    Eu Não Sou Seu Negro
    16.02.2017
Quadro por Quadro