Alice Através do Espelho dá sequência ao universo iniciado por Alice no País das Maravilhas, mas troca parte do fascínio da descoberta por uma aventura mais voltada à ação e às viagens temporais. Sob direção de James Bobin, com Tim Burton permanecendo como produtor, o longa amplia a mitologia daquele mundo fantástico, investindo em explicações para personagens já conhecidos e em uma trama que busca reconciliar passado, presente e futuro. O resultado é visualmente exuberante, embora nem sempre encontre equilíbrio entre espetáculo e emoção.
A história começa de forma curiosa, apresentando Alice como uma jovem aventureira que passou anos navegando pelos mares e enfrentando desafios que contrastam com as expectativas impostas às mulheres de sua época. Ao retornar para casa e reencontrar o País das Maravilhas, ela descobre que o Chapeleiro Maluco está consumido pela tristeza após acreditar que sua família ainda possa estar viva. A missão de ajudá-lo leva Alice a embarcar em uma jornada através do tempo, criando uma estrutura narrativa mais ambiciosa do que a do filme anterior.

Visualmente, o longa é um verdadeiro banquete. Os cenários são ricos em detalhes, os figurinos continuam impressionantes e os efeitos especiais criam imagens que parecem saídas diretamente de um livro ilustrado. A representação do Tempo, interpretado por Sacha Baron Cohen, acrescenta novas possibilidades estéticas ao universo da franquia, especialmente por meio de engrenagens, corredores temporais e mecanismos que transformam conceitos abstratos em elementos concretos e visualmente atraentes.
Ao mesmo tempo, essa abundância de ideias acaba se tornando um dos maiores problemas do filme. Há tantos elementos disputando atenção que, frequentemente, os personagens parecem ficar em segundo plano. Em vários momentos, a narrativa parece mais interessada em exibir novos cenários, criaturas e efeitos do que em aprofundar os conflitos emocionais que deveriam sustentar a trama. O excesso de estímulos visuais acaba diminuindo o impacto de algumas passagens que poderiam ser mais tocantes.
Johnny Depp retorna ao papel do Chapeleiro Maluco com a mesma excentricidade já conhecida, mas aqui o personagem ganha contornos mais melancólicos. Mia Wasikowska continua sendo uma presença sólida como Alice, transmitindo determinação e independência sem grandes exageros. Já Helena Bonham Carter e Anne Hathaway se destacam ao explorar a relação conturbada entre a Rainha Vermelha e a Rainha Branca, oferecendo ao filme seus momentos mais interessantes do ponto de vista dramático.

Existe uma intenção genuína de falar sobre arrependimentos, traumas familiares e a impossibilidade de mudar certos acontecimentos do passado. São temas que dão profundidade à aventura e impedem que ela se torne apenas uma sucessão de cenas espetaculares. Algumas dessas reflexões funcionam bem, especialmente quando relacionadas à rivalidade entre as irmãs reais e à necessidade de aceitar erros que não podem ser apagados.
Ainda assim, Alice Através do Espelho é um filme que parece constantemente dividido entre contar uma história emocional e impressionar o público com seus recursos visuais. Quando encontra espaço para seus personagens, revela qualidades consideráveis; quando se entrega ao excesso de efeitos e distrações, perde parte de sua força. É uma fantasia agradável, inventiva e visualmente deslumbrante, mas que raramente alcança o mesmo encantamento que promete em seus melhores momentos.








