Após o impacto causado por Titane, Julia Ducournau retorna ao universo do horror corporal com Alpha, mas desta vez o resultado está longe de alcançar a mesma força de seu trabalho anterior. O filme parte de uma premissa promissora, misturando paranoia social, adolescência e uma misteriosa doença que se espalha pela população, porém rapidamente se perde em uma narrativa confusa que parece incapaz de transformar suas ideias em algo realmente envolvente.
A protagonista Alpha vive em um mundo tomado pelo medo de uma enfermidade desconhecida, e a simples suspeita de contaminação basta para transformá-la em alvo de rejeição. Existe uma tentativa evidente de construir paralelos com crises sanitárias recentes e com o estigma direcionado a grupos marginalizados ao longo da história. O problema é que o roteiro nunca desenvolve essas questões de maneira consistente, preferindo acumular simbolismos que raramente encontram uma tradução dramática satisfatória.

Mélissa Boros faz um trabalho honesto no papel principal, transmitindo a vulnerabilidade e a solidão de uma jovem que vê seu cotidiano desmoronar. Ainda assim, a personagem parece constantemente refém de uma narrativa que a utiliza mais como veículo para conceitos do que como uma figura plenamente desenvolvida. O mesmo acontece com boa parte dos personagens secundários, que entram e saem da trama sem deixar uma impressão duradoura.
Visualmente, Alpha preserva algumas das qualidades que tornaram Ducournau uma cineasta tão interessante. A transformação dos corpos continua sendo filmada com um misto de fascínio e repulsa, e certas imagens possuem uma potência perturbadora inegável. No entanto, diferentemente de Titane ou Raw, aqui os elementos de horror parecem existir quase isoladamente, sem a sustentação emocional necessária para amplificar seu impacto.
A metáfora central da doença que petrifica seus portadores poderia render reflexões instigantes sobre medo, preconceito e exclusão. Porém, a diretora insiste em conduzir tudo de maneira excessivamente carregada, com cenas que elevam constantemente o tom dramático sem que exista uma progressão narrativa correspondente. O resultado é uma sensação de repetição, como se o filme estivesse sempre anunciando sua importância sem conseguir demonstrá-la.

Outro obstáculo está na construção do universo apresentado. Embora a história sugira uma crise de enormes proporções, a forma como a sociedade reage a ela parece inconsistente. O ambiente oscila entre o caos e a normalidade de maneira pouco convincente, enfraquecendo tanto a tensão quanto a credibilidade do cenário. Essa falta de coesão acaba tornando difícil investir emocionalmente nos conflitos propostos.
Alpha é um raro caso em que uma obra parece afundar sob o peso de suas próprias ambições. Há ideias interessantes espalhadas ao longo do caminho, além de lampejos do talento visual de Julia Ducournau, mas quase nada se encaixa de forma satisfatória. O que deveria ser uma poderosa alegoria sobre medo e exclusão acaba se transformando em uma experiência cansativa, excessivamente solene e surpreendentemente vazia.








