Amar ou Perder

(2024) ‧ 1h26

01.09.2025

Aposta no caos: o olhar irreverente de "Amar ou Perder"

Em meio ao universo saturado das comédias românticas, Amar ou Perder surge como uma proposta inusitada: uma protagonista que parece fazer de tudo para não ser simpática. Armande (María Cavalier-Bazan) é uma mulher endividada e viciada em apostas, que encontra no risco não apenas uma fuga da realidade, mas também o motor de sua existência. A entrada de Ronnie em sua vida, no entanto, traz a possibilidade de um jogo diferente: o amor. Só que, como a própria narrativa sugere, amar também pode significar perder.

Os irmãos Lenny e Harpo Guit, responsáveis pela direção, constroem uma estética de improviso que parece caseira, mas é engenhosamente pensada. Câmeras trêmulas, zooms abruptos e ângulos improváveis revelam não apenas precariedade, mas uma escolha estética que transforma o desarranjo em identidade. Há momentos em que o filme parece uma colagem audiovisual que, de tão caótica, se aproxima da espontaneidade do humor mais absurdo.

Nesse sentido, o longa dialoga diretamente com produções como Joias Brutas, dos irmãos Safdie, só que em uma versão “low cost” carregada de ironia. A dependência de Armande no jogo e o ritmo frenético de sua vida ecoam a ansiedade transmitida pelo filme americano, mas os Guit adicionam uma camada de humor debochado e um olhar carinhoso para a sua protagonista. Por mais falhas e absurdos que Armande cometa, a narrativa insiste em lembrá-la como alguém que, no fundo, merece ser compreendida.

María Cavalier-Bazan entrega uma atuação fascinante justamente por assumir os piores traços da personagem com naturalidade. Seja mentindo mal, desfilando roupas que desafiam o bom gosto ou se deixando levar por uma ingenuidade quase infantil, ela constrói uma figura paradoxal: ao mesmo tempo repulsiva e irresistível. A comicidade da obra nasce desse contraste, onde o grotesco se torna uma forma de afeto.

Outro ponto de destaque é a forma como os irmãos Guit exploram Bruxelas. Em vez de cartões-postais ou paisagens arrumadas, o filme se interessa pelos cantos esquecidos da cidade — becos, cassinos improvisados, piscinas públicas fora de horário. Essa cartografia do improvável dialoga com o espírito de Armande, uma mulher que se move entre apostas improváveis e encontros insólitos, como quem descobre poesia no caos urbano.

Ainda que o riso seja aconteça, há um subtexto de melancolia que permeia Amar ou Perder. As “vítimas” das trapaças de Armande carregam suas próprias solidões, tornando-se mais do que meros coadjuvantes cômicos. A cada encontro, o filme lembra que, por trás das situações caricatas, existe sempre uma fragilidade humana que merece atenção. Esse equilíbrio entre deboche e ternura é talvez o maior trunfo da obra.

Ao final, Amar ou Perder se revela uma aposta certeira no inesperado. É uma comédia romântica que desafia o próprio gênero, deslocando-o para um território em que o amor não redime totalmente, mas também não deixa de transformar. Ruidoso, ousado e profundamente original, o filme dos irmãos Guit encontra beleza no improviso e faz do riso um reflexo da precariedade, provando que perder também pode ser uma forma de ganhar.

ONDE ASSISTIR

AUTOR

Felipe Fornari

OUTRAS CRÍTICAS

As Horas

As Horas

As Horas, dirigido por Stephen Daldry, é uma meditação poderosa sobre a interconexão entre a expressão e a repressão, explorando as complexidades da mente feminina em momentos cruciais da vida. Inspirado no romance de Michael Cunningham, o filme é um retrato delicado...

Rúcula com Tomate Seco

Rúcula com Tomate Seco

A comédia romântica Rúcula com Tomate Seco traz às telas, mais uma vez, as velhas e rentáveis “DRs” que se tem em todos os relacionamentos amorosos. Acabamos nos identificando com os personagens, de uma forma ou de outra, pois é um tema sempre atual. Escrito, dirigido...

As Polacas

As Polacas

Infelizmente, a boa vontade não salva o olhar masculino na construção de narrativas e, em especial, daquelas visuais. As Polacas, filme de João Jardim (Para o dia nascer feliz e Janela da Alma) é um passeio pela exploração da tortura visual. O filme é floreado com...