Em meio ao universo saturado das comédias românticas, Amar ou Perder surge como uma proposta inusitada: uma protagonista que parece fazer de tudo para não ser simpática. Armande (María Cavalier-Bazan) é uma mulher endividada e viciada em apostas, que encontra no risco não apenas uma fuga da realidade, mas também o motor de sua existência. A entrada de Ronnie em sua vida, no entanto, traz a possibilidade de um jogo diferente: o amor. Só que, como a própria narrativa sugere, amar também pode significar perder.
Os irmãos Lenny e Harpo Guit, responsáveis pela direção, constroem uma estética de improviso que parece caseira, mas é engenhosamente pensada. Câmeras trêmulas, zooms abruptos e ângulos improváveis revelam não apenas precariedade, mas uma escolha estética que transforma o desarranjo em identidade. Há momentos em que o filme parece uma colagem audiovisual que, de tão caótica, se aproxima da espontaneidade do humor mais absurdo.

Nesse sentido, o longa dialoga diretamente com produções como Joias Brutas, dos irmãos Safdie, só que em uma versão “low cost” carregada de ironia. A dependência de Armande no jogo e o ritmo frenético de sua vida ecoam a ansiedade transmitida pelo filme americano, mas os Guit adicionam uma camada de humor debochado e um olhar carinhoso para a sua protagonista. Por mais falhas e absurdos que Armande cometa, a narrativa insiste em lembrá-la como alguém que, no fundo, merece ser compreendida.
María Cavalier-Bazan entrega uma atuação fascinante justamente por assumir os piores traços da personagem com naturalidade. Seja mentindo mal, desfilando roupas que desafiam o bom gosto ou se deixando levar por uma ingenuidade quase infantil, ela constrói uma figura paradoxal: ao mesmo tempo repulsiva e irresistível. A comicidade da obra nasce desse contraste, onde o grotesco se torna uma forma de afeto.
Outro ponto de destaque é a forma como os irmãos Guit exploram Bruxelas. Em vez de cartões-postais ou paisagens arrumadas, o filme se interessa pelos cantos esquecidos da cidade — becos, cassinos improvisados, piscinas públicas fora de horário. Essa cartografia do improvável dialoga com o espírito de Armande, uma mulher que se move entre apostas improváveis e encontros insólitos, como quem descobre poesia no caos urbano.

Ainda que o riso seja aconteça, há um subtexto de melancolia que permeia Amar ou Perder. As “vítimas” das trapaças de Armande carregam suas próprias solidões, tornando-se mais do que meros coadjuvantes cômicos. A cada encontro, o filme lembra que, por trás das situações caricatas, existe sempre uma fragilidade humana que merece atenção. Esse equilíbrio entre deboche e ternura é talvez o maior trunfo da obra.
Ao final, Amar ou Perder se revela uma aposta certeira no inesperado. É uma comédia romântica que desafia o próprio gênero, deslocando-o para um território em que o amor não redime totalmente, mas também não deixa de transformar. Ruidoso, ousado e profundamente original, o filme dos irmãos Guit encontra beleza no improviso e faz do riso um reflexo da precariedade, provando que perder também pode ser uma forma de ganhar.



