As Aves

(2025) ‧ 1h13

Entre a liberdade e a eternidade

Ricardo Feldmann Dotto

O longa-metragem de ficção As Aves, realizado por Pedro Magano (com argumento próprio e protagonizada por Gustavo Sumpta e Mafalda Rocha), estreou nos cinemas portugueses em outubro de 2025, após passagens por festivais como o In the Palace (Bulgária) e o Avanca Film Festival.

As Aves marca a estreia de Pedro Magano na realização de longas-metragens de ficção. Rodado de forma imersiva na Ria de Aveiro, o filme é uma obra de contornos poéticos e filosóficos que foge aos moldes comerciais tradicionais, apostando numa linguagem híbrida entre o mito, o teatro e a literatura.

O filme funciona como uma fábula filosófica e poética que cruza duas grandes influências culturais: O contoA Morte, o Tempo e o Velho, do escritor moçambicano Mia Couto (que inspirou a estrutura narrativa e a conceção das personagens). A peça clássica As Aves, do dramaturgo grego Aristófanes (que moldou o imaginário estético, os diálogos e os monólogos).

A história acompanha um velho (interpretado por Gustavo Sumpta) que vive isolado num cenário liminar, rodeado pelas águas e lamas de um estuário quase deserto. A ria é isolada de margens lamacentas (rodada na ria de Aveiro). A sua única e constante companhia é uma caturra mantida numa gaiola, metáfora viva da sua própria clausura existencial. Carregando um profundo rancor contra os deuses, o protagonista alimenta o desejo de escapar ao ciclo repetitivo da rotina e da mortalidade humana, sonhando em fundar uma nova cidade mítica onde homens e aves possam habitar em liberdade (Nefelocucolândia).

A situação altera-se quando a Morte e o Tempo surgem inesperadamente a bordo de um moliceiro, desencadeando um confronto sobre os ciclos da vida, a finitude humana e o desejo de eternidade.

A Ria de Aveiro funciona como um verdadeiro purgatório visual. A dependência das marés ditou o rigoroso plano de filmagens de Magano, resultando num ambiente de texturas densas, onde a água e a lama moldam o ritmo lento e contemplativo da narrativa.

Com um elenco enxuto encabeçado por Gustavo Sumpta e Mafalda Rocha, o filme aposta em interpretações contidas que priorizam o peso do silêncio, os olhares e a urgência da palavra dita de forma teatral.

As Aves é uma obra recomendada para apreciadores do cinema do autor e de propostas experimentais que cruzam a filosofia com a ecologia visual. Não é um filme de fácil consumo para o grande público devido ao seu passo meditativo e hermético, mas destaca-se pela coragem de transformar a paisagem natural num espaço de reflexão metafísica sobre a liberdade e os limites da condição humana.

A síntese do filme resume o conflito mitológico que podemos sublinhar: “O Homem quer asas, os Deuses querem risos, as Aves querem eternidade. Ao Tempo, nada é concedido.”

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