As Correntes

(2025) ‧ 1h44

Uma viagem sem ticket de volta para sí mesma

Melissa Pasqualli

As Correntes começa apresentando a história de Lina, uma estilista argentina de sucesso que viaja à Suíça para participar de uma cerimônia de premiação. A noite do evento desencadeia uma ansiedade sufocante e um desejo desesperado de escapar daquela realidade, levando-a a se jogar em um rio suíço.

Ao retornar para casa, Lina não conta a ninguém o que aconteceu. No entanto, as pessoas ao seu redor começam a perceber mudanças em seu comportamento e um crescente distanciamento. O roteiro apresenta uma premissa muito forte, mas acaba não desenvolvendo com a mesma intensidade a raiz do colapso emocional da protagonista.

O estado de dissociação de Lina é retratado com grande força por Isabel Sola. A direção de imagem de Milagros Mumenthaler contribui para construir uma atmosfera de ansiedade e incerteza, colocando o espectador em constante estado de inquietação.

O grande motor da história se encontra no afastamento de Lina da vida que conhecia como mulher, mãe e ser. Seu processo de desintegração após o episódio dissociativo é explorado de forma rica e sensível, como se ela jamais tivesse realmente retornado da Suíça.

Uma das cenas mais marcantes demonstra como ser vista também é ser acolhida sem julgamentos. Mesmo em meio ao caos, Lina encontra raros momentos de ajuda e compreensão em uma antiga amiga, que a apoia após o desenvolvimento de um intenso medo de submergir na água.

Introspectivo, esteticamente belo e bem construído, embora apresente algumas lacunas narrativas, As Correntes é mais uma demonstração da qualidade do cinema argentino. Um trabalho sensível e profundo da diretora e roteirista Milagros Mumenthaler, que transforma o sofrimento silencioso de sua protagonista em uma experiência contemplativa e emocionalmente envolvente.

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