Ata-me!

(1989) ‧ 1h41

Amor, controle e contradição

Felipe Fornari

Com Ata-me!, Pedro Almodóvar mergulha em um terreno particularmente delicado ao transformar uma história de sequestro em uma estranha fábula romântica. O resultado é um dos filmes mais controversos de sua carreira, não apenas pelo tema provocador, mas pela forma como desafia constantemente as expectativas do público. Entre a comédia, o melodrama e o thriller psicológico, a obra se recusa a permanecer em um único registro.

A trama acompanha Ricky (Antonio Banderas), um jovem recém-saído de uma instituição psiquiátrica que decide reencontrar Marina (Victoria Abril), atriz em ascensão e ex-dependente química com quem teve um breve encontro no passado. Convencido de que nasceram um para o outro, ele a sequestra e a mantém presa em seu apartamento, acreditando que, com tempo suficiente, conseguirá fazê-la se apaixonar por ele. O ponto de partida é desconfortável, e Almodóvar sabe disso, utilizando a premissa para provocar reações contraditórias ao longo de toda a narrativa.

O maior trunfo do filme está justamente na construção de Ricky. Antonio Banderas entrega um personagem simultaneamente inquietante e vulnerável, alguém que oscila entre o comportamento obsessivo e uma inocência quase infantil. Sua visão distorcida do amor nasce de uma vida inteira marcada por abandono e instituições, fazendo com que suas atitudes pareçam menos fruto de maldade e mais de uma incapacidade genuína de compreender limites emocionais e sociais.

Victoria Abril, por sua vez, oferece uma interpretação cheia de personalidade. Marina não é uma vítima passiva, mas uma mulher marcada por suas próprias fragilidades e cicatrizes. Conforme a convivência forçada avança, o filme explora uma dinâmica cada vez mais ambígua entre os dois personagens, conduzindo o espectador por um caminho onde afeto, dependência, desejo e manipulação frequentemente se confundem.

Visualmente, Ata-me! traz várias das marcas registradas do diretor espanhol. As cores vibrantes, os cenários carregados de personalidade e a mistura de exagero com sinceridade emocional ajudam a criar uma atmosfera única. Há também uma divertida metalinguagem envolvendo o universo do cinema, com filmagens de produções de baixo orçamento e personagens ligados à indústria audiovisual, algo que Almodóvar frequentemente utiliza para comentar a própria natureza da ficção.

Ao mesmo tempo, o filme nem sempre encontra equilíbrio entre suas intenções. Algumas transições emocionais parecem abruptas, especialmente quando a narrativa tenta converter uma relação baseada em coerção em uma história de amor convincente. É justamente essa escolha que divide opiniões até hoje. O cineasta aposta na lógica da fantasia romântica levada ao extremo, mas nem todos os espectadores aceitarão embarcar nessa proposta sem questionamentos.

Ainda assim, Ata-me! permanece uma obra fascinante dentro da filmografia de Almodóvar. Imperfeito, provocador e frequentemente desconcertante, o filme revela um diretor disposto a explorar os aspectos mais contraditórios do desejo humano. Entre momentos de humor, estranheza e ternura, surge um romance tão improvável quanto controverso, capaz de despertar simultaneamente encanto e desconforto — talvez exatamente a reação que seu realizador pretendia provocar.

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