O Esquema Fenício é mais uma prova de que Wes Anderson não só criou uma assinatura visual inconfundível, como também a transformou em um gênero próprio. Neste novo delírio simétrico, o diretor volta a trabalhar ao lado de Roman Coppola para entregar uma comédia de espionagem e herança familiar que brinca com os limites do absurdo, sem jamais perder o controle sobre seu rigor estético. Sim, tudo aqui é meticulosamente organizado, mas também deliciosamente caótico.
Benicio Del Toro vive Zsa-zsa Korda, um magnata com mais vidas que um gato e um ego compatível com sua fortuna. Depois de sobreviver a mais uma tentativa de assassinato (e ao seu sexto acidente de avião), ele decide que é hora de pensar no futuro: convoca sua filha, a freira Liesl, interpretada com precisão por Mia Threapleton, para ajudá-lo a concretizar seu projeto mais ambicioso – o tal esquema fenício que dá nome ao filme. A contradição entre os valores da filha e as práticas nada éticas do pai é o cerne de uma história onde fé, família e finanças se chocam o tempo todo.

Diferente de outros trabalhos recentes de Anderson, como A Crônica Francesa ou Asteroid City, que dividiam suas narrativas em camadas ou capítulos desconexos, O Esquema Fenício tem um foco mais coeso. A trama é relativamente simples, ao menos na superfície: pai e filha viajam pelo mundo negociando com empresários corruptos, mafiosos exóticos e burocratas oportunistas. Mas como sempre, o charme está nos detalhes — e são muitos.
A ambientação é um espetáculo à parte. Cada locação — túneis intermináveis, plataformas ou palácios repletos de arte — é apresentada como se fosse uma vitrine em miniatura. Wes Anderson continua sendo um arquiteto do cinema, construindo mundos inteiros com maquetes, paletas de cores improváveis e movimentos de câmera matematicamente calculados. O resultado é um universo que parece ao mesmo tempo real e sonhado.
Michael Cera é o elemento surpresa do filme. Como o tutor Bjorn, um entomologista escandinavo de sotaque indecifrável, ele entrega uma performance que mistura ingenuidade e excentricidade em doses perfeitas. É o melhor tipo de personagem coadjuvante que um filme de Anderson pode ter: carismático, engraçado e com um papel que cresce conforme a história acontece — lembrando o Zero de O Grande Hotel Budapeste.

Há quem diga que todos os filmes de Wes Anderson são iguais. Mas O Esquema Fenício mostra o quanto ele pode subverter suas próprias regras. Há espaço aqui para experimentações visuais e até uma leve autocrítica escondida entre piadas e metáforas. Ainda que o diretor continue fiel à sua estética, é interessante vê-lo brincar com sua própria fórmula.
O Esquema Fenício pode não conquistar quem já torce o nariz para o estilo do cineasta, mas para quem embarca nesse universo estilizado e irônico, é um prato cheio. É Wes Anderson sendo, mais do que nunca, Wes Anderson — e isso, para muitos de nós, continua sendo uma das melhores coisas que o cinema pode oferecer.







