Atlantic City

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"Atlantic City": Entre ruínas e ilusões

Atlantic City, dirigido por Louis Malle, é uma obra que mistura lirismo e desencanto ao retratar personagens deslocados em busca de algum sentido em suas vidas. O filme acompanha Sally (Susan Sarandon), uma garçonete que sonha em se tornar crupiê, e Lou (Burt Lancaster), um gângster envelhecido que vive de lembranças do passado e pequenos trabalhos marginais. O encontro dos dois se torna o ponto de partida para um mergulho em temas como decadência, desejo e a inevitável passagem do tempo.

Lou é apresentado como um homem preso a uma versão idealizada de si mesmo, identificando-se com gângsteres lendários enquanto tenta manter uma aura de importância que já não existe. Já Sally encarna a juventude que almeja ascender, mesmo que seu caminho seja atravessado por obstáculos pessoais e familiares, como o retorno do marido ausente e problemático. A relação entre ambos nasce da solidão e da necessidade de reinvenção, transformando-se em algo ao mesmo tempo terno e ambíguo.

O cenário de Atlantic City é quase um personagem por si só. A cidade, em processo de transformação, entre cassinos luxuosos e prédios em ruínas, reflete o próprio estado de seus habitantes: pessoas entre a promessa de renovação e a dureza da decadência. Essa metáfora urbana potencializa o drama, tornando cada cena carregada de simbolismo.

A direção de Malle valoriza a estranheza e a vulnerabilidade dos personagens, evitando julgamentos fáceis. O tom oscila entre o realismo cru e um lirismo delicado, permitindo que a narrativa abrace tanto momentos de perversidade quanto de ternura. Essa ambiguidade é uma das grandes forças do filme, pois torna os personagens humanos e falíveis, presos em sonhos que parecem sempre à beira de se desfazer.

As atuações são um espetáculo à parte. Burt Lancaster entrega uma das performances mais memoráveis de sua carreira, em um papel que parece escrito sob medida para ele, misturando fragilidade e orgulho. Susan Sarandon, em ascensão, traz sensualidade, vulnerabilidade e firmeza, consolidando-se como uma das grandes atrizes de sua geração. A química entre os dois é um dos pontos altos do longa, equilibrando o contraste entre juventude e velhice, ambição e resignação.

O roteiro de John Guare, em sua estreia no cinema, constrói personagens que soam inventivos e autênticos, como se estivessem criando suas próprias histórias no instante em que vivem. Essa fluidez narrativa dá ao filme um ar de fábula moderna, onde encontros casuais e acidentes de percurso moldam os destinos de todos. Ainda que permeado por tragédias e frustrações, o tom é mais de contemplação do que de condenação.

Com sua atmosfera melancólica, fotografia evocativa e trilha sonora delicada, Atlantic City se impõe como um estudo sobre o fim de uma era e a busca por relevância em meio às ruínas. É ao mesmo tempo um retrato íntimo de personagens feridos e uma reflexão maior sobre a ilusão do renascimento. Um filme que, mesmo discreto em bilheteria, permanece como um marco da maturidade artística de Malle e do talento inesquecível de seus intérpretes.

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