Bacurau

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Onde fica "Bacurau"?

Há filmes que, ao fim da sessão, nos fazem sentir que vivemos algo único — e Bacurau é um desses. Ao lado de Juliano Dornelles, Kleber Mendonça Filho leva sua inquietação política e sua sensibilidade estética a um novo patamar, misturando faroeste, ficção científica, terror e realismo num coquetel que é ao mesmo tempo indigesto e necessário. Um grito de resistência vindo do sertão que parece mirar o mundo inteiro.

A trama se passa em um futuro próximo, mas é atravessada por um presente muito reconhecível. Quando o pequeno povoado de Bacurau desaparece dos mapas e os celulares deixam de funcionar, os moradores percebem que algo está profundamente errado. A chegada de drones, turistas estrangeiros armados até os dentes e o isolamento absoluto do restante do país colocam a vila em alerta. Mas essa comunidade, marcada por memórias de luta e autossuficiência, está longe de ser passiva.

Bacurau tem um pé na distopia e outro na tradição do cangaço. Lunga, vivido de forma magnética por Silvero Pereira, é a personificação disso: uma figura quase mítica, simultaneamente bandido e herói, que encarna a fúria coletiva contra a opressão externa. O filme também resgata a figura do coronelismo moderno na pele do político Tony Jr., e transforma a própria arquitetura do povoado — com seu museu, sua escola e sua história — em armas simbólicas e concretas de resistência.

O uso da violência em Bacurau é intencionalmente chocante. Mas não é gratuita. Ela surge como resposta desesperada a uma invasão silenciosa e sistemática, encarnada por estrangeiros que veem os moradores como meras peças descartáveis de um jogo de caça. Ao dar rosto a esses “turistas” — liderados pelo sinistro personagem de Udo Kier —, o filme escancara a lógica perversa de exploração que atravessa o neoliberalismo, o racismo e o colonialismo ainda vivo.

Narrativamente, o longa é um híbrido fascinante. Começa com o tom de um documentário etnográfico, apresentando rituais, relações e cotidianos locais, para depois se transformar em uma fábula de horror político e culminar num banho de sangue que parece saído de um Shakespeare sertanejo. Tudo isso com um domínio estético de tirar o fôlego: a fotografia é quente e precisa, o som pulsa como personagem e a montagem dita um ritmo que vai da contemplação ao caos absoluto.

Há também elementos de delírio, como o drone em forma de disco voador ou o uso ritualístico de psicotrópicos, que acentuam o clima de fábula distorcida. Em Bacurau, não há separação clara entre o real e o simbólico. Tudo está contaminado por um sentimento de urgência, de que ou se luta, ou se some — literalmente — do mapa.

Mais do que um filme, Bacurau é uma declaração de princípios. Uma resposta afiada e criativa a um Brasil cada vez mais hostil às suas próprias raízes. Seu poder está em misturar o grotesco ao cotidiano, o popular ao político, o regional ao universal. E ao fim, quando o sangue seca e a poeira baixa, o que fica é a certeza de que resistir, por mais surreal que pareça, é ainda a única saída.

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