Boi Neon

(2015) ‧ 1h41

Entre a poeira e o sonho

Felipe Fornari

Boi Neon é um filme sobre personagens que vivem cercados por expectativas, mas recusam qualquer definição fácil. Ambientado no universo das vaquejadas nordestinas, Gabriel Mascaro acompanha a rotina de Iremar, um peão que sonha em trocar o curral pela moda. A premissa, por si só, já rompe estereótipos, mas o grande mérito do longa está em tratar esse desejo com absoluta naturalidade, sem transformá-lo em manifesto ou em conflito artificial.

Iremar é um homem acostumado ao trabalho pesado, mas que dedica suas horas vagas a desenhar roupas, observar tecidos e imaginar coleções. Ao seu redor, Galega dirige caminhão, cuida da filha e participa dos espetáculos das vaquejadas, enquanto os demais personagens também escapam das imagens tradicionais associadas à masculinidade e à feminilidade. Boi Neon desmonta essas convenções sem fazer discursos, permitindo que as atitudes dos personagens falem por si.

O roteiro aposta em uma narrativa observacional, mais interessada em registrar o cotidiano do que em conduzir uma trama cheia de reviravoltas. Acompanhamos pequenas situações, encontros e deslocamentos que revelam lentamente quem são aquelas pessoas e como elas enxergam o mundo. Essa simplicidade narrativa pode causar estranhamento para quem espera um conflito mais evidente, mas encontra força justamente na maneira como transforma gestos comuns em momentos de grande significado.

Visualmente, o filme é impressionante. A fotografia de Diego Garcia captura a aridez das paisagens nordestinas com enorme beleza, enquanto contrapõe o barro, o couro e a poeira às cores vibrantes dos tecidos, das luzes e dos figurinos. Essa dualidade entre um universo rural e um desejo voltado para a criação estética sintetiza perfeitamente o espírito do longa, que encontra poesia em espaços onde poucos costumam procurá-la.

As atuações reforçam essa autenticidade. Juliano Cazarré entrega talvez uma das interpretações mais interessantes de sua carreira, construindo um protagonista de poucas palavras, mas repleto de humanidade. Maeve Jinkings também se destaca pela força silenciosa de Galega, formando com o restante do elenco um grupo de personagens que parecem existir muito além dos limites da narrativa.

O único aspecto que ocasionalmente reduz o impacto do longa é o ritmo bastante contemplativo. Algumas sequências permanecem em cena por tempo maior do que o necessário e podem provocar certa sensação de repetição. Ainda assim, essa escolha faz parte da proposta de observar a passagem do tempo e o cotidiano daqueles personagens, sem recorrer a atalhos dramáticos.

Boi Neon confirma Gabriel Mascaro como um dos cineastas mais interessantes do cinema brasileiro contemporâneo. Ao falar sobre sonhos, identidade, trabalho e desejo sem cair em simplificações, o diretor constrói um filme delicado, provocador e visualmente marcante. É uma obra que desafia expectativas com enorme sensibilidade e encontra beleza justamente nas contradições de seus personagens e do Brasil que eles habitam.

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