BuenosAires

(2026) ‧ 1h10

Uma ideia curiosa em busca de um filme

Felipe Fornari

BuenosAires parte de uma premissa naturalmente curiosa: uma pequena cidade do interior pernambucano que carrega o mesmo nome da capital argentina e cultiva algumas referências culturais ligadas ao país vizinho. Existe potencial imediato nessa descoberta, seja pela estranheza do nome, pelas conexões improváveis ou pela possibilidade de discutir identidade cultural e pertencimento. O problema é que o documentário parece satisfeito demais com a própria anedota inicial, sem conseguir aprofundá-la de maneira realmente envolvente.

Ao longo da produção, a direção se dedica a encontrar sinais dessa “argentinidade” espalhada pela cidade. Surgem referências ao futebol, fachadas inspiradas no Caminito, músicas típicas, bandeiras e pequenas homenagens espalhadas pelo cotidiano dos moradores. Em um primeiro momento, essas observações despertam simpatia, principalmente pelo tom leve e descontraído adotado pelo filme. Porém, rapidamente, a repetição começa a esvaziar o impacto da proposta.

Falta ao documentário um interesse maior pelas pessoas que vivem naquele espaço. Os personagens aparecem mais como peças ilustrativas da ideia central do que como indivíduos capazes de conduzir uma narrativa própria. A professora de espanhol, o músico local ou mesmo o morador argentino poderiam render caminhos muito mais ricos, mas o filme raramente permanece tempo suficiente com qualquer um deles para criar conexão emocional ou aprofundar suas histórias.

Essa superficialidade também atinge a investigação histórica. O longa menciona a origem do nome da cidade, mas evita explorar de verdade como essa relação simbólica surgiu ou o que ela representa para os habitantes. Em vez de mergulhar nas camadas sociais, políticas ou culturais dessa coincidência, prefere insistir em referências mais caricatas e turísticas, reduzindo a Argentina quase sempre ao futebol, tango e empanadas.

Visualmente, BuenosAires aposta em uma linguagem simples, às vezes próxima de um registro caseiro e observacional. Há momentos de espontaneidade, especialmente quando o filme apenas acompanha o cotidiano da cidade sem tentar fabricar significado. No entanto, algumas encenações e intervenções soam artificiais demais, quebrando justamente a naturalidade que poderia ser o maior trunfo do documentário.

A montagem também contribui para a sensação de desgaste. Certas ideias retornam diversas vezes sem acrescentar novas perspectivas, criando um ritmo circular que enfraquece ainda mais um material que já parece limitado para a duração de um longa-metragem. Em muitos momentos, surge a impressão de que o documentário encontrou uma curiosidade divertida, mas não descobriu exatamente o que fazer com ela depois dos primeiros vinte minutos.

Ainda assim, existe algum charme na maneira afetuosa como a cidade é retratada. O filme claramente possui carinho por seus personagens e pelo humor involuntário dessa conexão improvável entre Pernambuco e Argentina. Só que simpatia, sozinha, não sustenta um documentário inteiro. BuenosAires acaba funcionando mais como uma curiosidade estendida do que como uma investigação realmente instigante, deixando a sensação de que havia um tema interessante esperando por um olhar mais profundo e menos repetitivo.

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