O diretor japonês Kiyoshi Kurosawa é prolífico e disso ninguém tem dúvida. Mesmo assim, desde 2020 ele não lançava nenhum material, até que em 2024 saíram dois longas-metragens e um média. Esse último, com o título em inglês de Chime (que se relaciona com um sinal sonoro), é um dos thrillers mais instigantes (e até mesmo brutal) dos últimos tempos e trata tanto de terrores sugestivos quanto aqueles da ordem da crítica social costumeira em sua obra.

Já o longa Cloud – Nuvem de Vingança, que passou por grandes festivais e foi o filme indicado do Japão ao Oscar, opera na chave semelhante da condição do trabalhador na lógica capitalista, porém tenta resgatar a sugestividade característica do diretor, só que sem muito sucesso. Yoshii (Masaki Suda) é um trabalhador de fábrica que, para complementar a renda, vende suplementos de saúde na internet. Percebendo que ganha mais com as vendas online, larga seu trabalho e decide investir tudo nesse ramo, só que vendendo produtos de grife falsificados. Ao se mudar para uma casa em área isolada (para ter mais liberdade de receber e enviar produtos), com sua namorada Akiko (Kotone Furukawa), as coisas começam a tomar rumos incertos pois ele começa a ser delatado em fóruns da internet e absolutamente qualquer pessoa por perto pode se tornar uma espécie de inimigo.
O que o capitalismo faz para que as pessoas escalem a violência quando a lógica do lucro também é uma forma de vencer nesse sistema? Essa é uma pergunta que ronda as tentativas de sugestão do roteiro. A ideia de falsificação e da realidade palpável versus a identidade na internet arranham alguns momentos do roteiro, chegando a gerar um burburinho mental em quem assiste. Porém, a vontade de que a ideia de vingança seja alcançada acaba sendo o que orienta o restante do filme.

Para quem conhece o trabalho do diretor, sabe que as perguntas não precisam ser respondidas, porém instigadas a serem objeto de reflexões como acontece em Chime. Infelizmente aqui, quando o filme se torna um thriller de vingança, já não sentimos que estamos acompanhando o ritmo que ronda as escolhas obscuras do protagonista. Parece que o roteiro se perdeu da metade em diante. No entanto, isso é feito na mão de um diretor como Kiyoshi, ou seja, ficamos firmes até o final esperando a sugestão instigada. Quem sabe ela venha bem depois de assistir ao filme.







