Lançado em 1966, Como Conquistar as Mulheres é um retrato ambíguo e provocador de um tempo em transformação — tanto em termos de costumes quanto de masculinidade. O filme acompanha Alfie, um jovem londrino de classe trabalhadora que transita com facilidade pelo universo feminino, colecionando casos amorosos e evitando qualquer forma de compromisso. A narrativa acontece sob o ponto de vista do próprio protagonista, que quebra a quarta parede para conversar com o público, expondo suas opiniões, justificativas e contradições com um sorriso no rosto.
Interpretado por Michael Caine no papel que o consagrou, Alfie é ao mesmo tempo cínico e encantador, cruel e vulnerável. A atuação magnética de Caine sustenta o longa e nos convida a rir — e depois hesitar — diante das atitudes do personagem. Há algo de desconcertante na leveza com que Alfie manipula e descarta as mulheres à sua volta, sempre acreditando estar no controle, mesmo quando tudo começa a desmoronar.

O filme ganha força ao abordar com franqueza temas que ainda eram tabus para a época, como aborto, traição, relações extraconjugais e responsabilidade emocional. A cena mais marcante, embora aconteça fora da tela, é aquela em que Alfie confronta, pela primeira vez, as consequências reais de seus atos. O choque de ver a vida que ajudou a interromper é o ponto de inflexão do personagem — e do filme. De repente, a comédia perde o fôlego, e o espectador é empurrado para um lugar de incômodo.
A estrutura episódica da narrativa, pontuada pelos relacionamentos passageiros de Alfie, revela uma galeria de personagens femininas que, embora coadjuvantes, imprimem profundidade e humanidade à trama. Lily (Vivien Merchant) e Gilda (Julia Foster) são figuras trágicas de um sistema afetivo que privilegia o prazer masculino em detrimento de qualquer afeto real. Elas não são apenas vítimas de Alfie, mas também espelhos de um tempo em que o desejo feminino era, frequentemente, ignorado ou punido.
Visualmente, Como Conquistar as Mulheres é um retrato vibrante da efervescente Londres dos anos 1960, com seus modismos, sua juventude rebelde e sua nova liberdade sexual. Mas, ironicamente, o filme subverte esse cenário festivo ao mostrar como a liberdade sem responsabilidade pode gerar apenas solidão. Quando Alfie finalmente se dá conta de que sua vida está vazia, o vazio não é só dele — é de toda uma geração que acreditou que bastava conquistar para ser feliz.

Há momentos em que o roteiro escorrega em simbolismos desnecessários ou em cenas que soam forçadas, como a briga de bar ou o batizado fora de tom. Mas esses tropeços não anulam o impacto de um filme que, mesmo com ares de comédia, traz em seu cerne uma reflexão melancólica sobre a busca por sentido em meio ao hedonismo.
Como Conquistar as Mulheres é, no fim, um estudo de personagem mais do que uma história sobre amor ou sedução. Alfie não conquista as mulheres — ele as atravessa, colecionando cicatrizes que só mais tarde percebe como sendo também suas. Um clássico que permanece relevante não pela provocação, mas pela honestidade com que desmonta o mito do conquistador invencível.







