Marty Supreme

(2025) ‧ 2h29

07.01.2026

Um rali caótico na mente de um anti-herói barulhento

Marty Supreme é um daqueles filmes que já começam em velocidade máxima e nunca realmente pisam no freio. Josh Safdie transforma a trajetória de um jogador de tênis de mesa em algo muito mais próximo de um delírio cômico, caótico e exaustivo do que de uma cinebiografia esportiva tradicional. O resultado é um filme barulhento, nervoso e frequentemente desconfortável, mas também eletrizante em sua ousadia formal e narrativa.

Inspirado livremente na figura real de Marty Reisman, o longa acompanha Marty Mauser, vivido por Timothée Chalamet como um verdadeiro carro desgovernado. Ele é falastrão, egocêntrico, oportunista e movido por uma fé quase patológica em sua própria grandeza. Safdie não tenta torná-lo simpático nem redimi-lo facilmente; ao contrário, o filme parece interessado em observar como esse tipo de personalidade sobrevive — e até prospera — em meio ao caos que ela mesma provoca.

Ambientado na Nova York dos anos 1950, Marty Supreme retrata uma cidade tão inquieta quanto seu protagonista. O esporte funciona mais como pretexto do que como foco: não há treinos edificantes, discursos inspiradores ou explicações técnicas. O tênis de mesa surge como extensão do próprio Marty, um jogo de reflexos rápidos, blefes constantes e movimentos imprevisíveis, refletidos na montagem acelerada e no ritmo quase histérico do filme.

Chalamet entrega aqui uma de suas performances mais físicas e caricatas, explorando o corpo magro, a fala atropelada e uma energia quase agressiva. Seu Marty parece sempre prestes a implodir, movido por indignação, desejo e uma necessidade constante de validação. É uma atuação que flerta com o grotesco, mas nunca perde o controle, sustentando o filme mesmo quando ele ameaça sair completamente dos trilhos.

O contraponto mais elegante vem de Gwyneth Paltrow, em um retorno inesperado e afiado. Sua personagem adiciona uma camada de ironia e autoconsciência que o filme precisa desesperadamente. Enquanto Marty se debate em sua própria mitologia pessoal, ela parece enxergar com clareza tanto o absurdo quanto a fragilidade por trás daquela pose inflada, funcionando como um raro ponto de equilíbrio emocional em meio ao turbilhão.

Narrativamente, o filme se recusa a seguir qualquer estrutura confortável. As situações se acumulam como rebatidas sucessivas, muitas vezes beirando o excesso, o mau gosto ou o desgaste deliberado. Safdie parece interessado menos em contar uma história “sobre” alguém e mais em reproduzir uma sensação — a de estar preso dentro da mente de um sujeito incapaz de parar, refletir ou recuar.

Marty Supreme deixa uma impressão curiosa: é cansativo, provocador e irregular, mas também estranhamente hipnótico. Quando finalmente desacelera, há um vislumbre inesperado de maturidade, quase como se o próprio filme respirasse após um longo rali (e o público também). Não é uma obra para todos os gostos, mas sua energia indomável e sua recusa em se comportar como esperado fazem dela uma experiência singular, tão caótica quanto fascinante.

ONDE ASSISTIR

AUTOR

Felipe Fornari

OUTROS INDICADOS

Crash – No Limite

Crash – No Limite

Filmes com muitas histórias podem ser desafiadores, mas alguns cineastas aceitam o desafio e seus resultados podem ser recompensadores para eles e para o público. "Crash - No Limite" é um destes filmes. Muitos personagens estão entrelaçados, na estreia de Paul Haggis...

Cavalo de Guerra

Cavalo de Guerra

Com Cavalo de Guerra, Steven Spielberg retorna ao drama histórico, combinando seu domínio técnico com uma narrativa sensível sobre amizade e sobrevivência em tempos de guerra. Baseado no romance de Michael Morpurgo, o filme acompanha a trajetória de Joey, um cavalo...

A Cidadela

A Cidadela

Dirigido por King Vidor, A Cidadela acompanha a trajetória de Andrew Manson, um médico jovem e idealista, interpretado por Robert Donat, que chega a uma cidade mineradora para prestar atendimento a uma comunidade assolada por problemas respiratórios. Com compaixão e...