Cordélicos: A Origem do Cabra da Peste

(2024) ‧ 1h08

Cordel, cangaço e ficção científica no sertão do futuro

Renata Barbosa

Oxente! O longa de animação brasileira Córdélicos: A Origem do Cabra da Peste, foi uma grata surpresa! Trata-se de uma proposta nada usual e muito criativa, que combina elementos da literatura de cordel, do imaginário do cangaço e de ficção científica. É um exemplo de como o cinema nacional pode ampliar horizontes, preservando as tradições culturais que marcam a identidade do nosso grande Nordeste brasileiro.

A história acompanha cinco cangaceiros que, durante uma fuga no sertão nordestino da década de 1930, entram em contato com os planos de uma máquina do tempo. A partir daí, o grupo viaja no tempo e chega ao chamado “Neo Nordeste”, no ano de 3333. Essa versão futurista do sertão, sob o domínio autoritário do Cabra da Peste, conta com naves espaciais e tecnologias avançadas, e críticas ao limite da degradação ambiental e a escassez de recursos naturais. Durante a fuga, os personagens acabam separados em diferentes épocas, na tentativa de escapar do Cabra da Peste. A aventura se desdobra a partir daí: a viagem no tempo, a tentativa de reencontro temporal e dos companheiros do cangaço, e luta contra o vilão que controla os recursos do futuro.

O mais interessante é perceber que, mesmo em um cenário do sertão futurista, a identidade cultural nordestina permanece presente. Entre máquinas do tempo, paradoxos temporais e cenários inspirados no cordel, a aventura preserva referências ao cangaço, à oralidade popular e aos costumes sertanejos.

Trata-se de uma animação digital de produção nacional, que escapa dos holofotes das grandes produções internacionais, mas não deixa nada a desejar, com criatividade e competência técnica. Em vez de reproduzir modelos narrativos inspirados nas grandes produções estrangeiras, incorpora símbolos historicamente associados ao Nordeste brasileiro, como o cangaço, a vida sertaneja e o humor regional. Assim, o sotaque, as expressões populares e os trejeitos dos personagens, conferem um tom especial à animação.

Dirigido e roteirizado por Ale McHaddo, que já possui trajetória na animação brasileira, o filme ainda conta com a participação especial do cantor Falcão, enquanto personagem e dublador, o que reforça o caráter regional e bem-humorada da produção. Além disso, conta com e elenco de vozes conhecidas, com interpretações de Bruno Garcia, Raissa Xavier, Ta deu Mello, Marcelo Mansfield, Carol Góes e Felipe Mazzoni.

Cordélicos se destaca pela originalidade ao mesclar o universo do cangaço com os ares distópicos da ficção científica. Demonstra que a animação brasileira pode explorar caminhos criativos próprios, a partir de referências culturais nacionais, e de como tradições locais podem dialogar com linguagens mais contemporâneas.

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