Corrida Contra o Tempo não perde muitos minutos antes de colocar sua protagonista para correr — e tampouco encontra muitos motivos para fazê-la parar. Gal Gadot interpreta Maia Marten, uma poderosa advogada que vê sua rotina desmoronar quando recebe uma ligação informando que seu filho foi sequestrado. Do outro lado da linha, uma voz misteriosa determina o que ela deve fazer e estabelece um prazo praticamente impossível. A partir daí, Londres se transforma em uma enorme pista de obstáculos, enquanto Maia corre de um ponto a outro tentando obedecer às instruções, compreender o plano por trás daquela ameaça e encontrar alguma maneira de salvar o garoto.
A simplicidade da proposta poderia trabalhar a favor do longa. Há algo naturalmente eficiente em estabelecer um relógio, uma cidade movimentada e uma protagonista obrigada a tomar decisões enquanto permanece constantemente em movimento. Kevin Macdonald parece interessado em construir um thriller quase em tempo real, usando o telefone como elo entre Maia e seu algoz e transformando cada novo comando em uma etapa da corrida. O problema é que Corrida Contra o Tempo precisa inventar complicações cada vez mais improváveis para sustentar esse mecanismo, até que a urgência inicialmente interessante começa a parecer apenas artificial.

Gal Gadot possui a presença física necessária para uma personagem que passa grande parte do filme correndo, desviando de pessoas e atravessando diferentes espaços de Londres. É quando Maia precisa transmitir o desespero de uma mãe diante da possibilidade de perder o filho, porém, que a interpretação encontra maiores dificuldades. Gadot não consegue conferir a intensidade emocional necessária a várias cenas, tornando mecânicos diálogos que deveriam aumentar nossa angústia. Damian Lewis tem desempenho mais interessante como a voz responsável por conduzi-la através daquele pesadelo, explorando com eficiência a frieza e o prazer do personagem em demonstrar que aparentemente controla tudo.
Macdonald também parece acreditar que movimento constante significa necessariamente tensão. A câmera circula ao redor de Maia, aproxima-se repentinamente de seu rosto, muda de ângulo e acompanha sua corrida com uma inquietação que logo se torna cansativa. A montagem igualmente acelerada tenta transmitir desorientação, mas frequentemente chama mais atenção para si mesma do que para aquilo que está acontecendo. Curiosamente, Corrida Contra o Tempo seria provavelmente mais angustiante se tivesse confiança para observar a protagonista por períodos maiores, permitindo que o próprio limite de tempo criasse suspense em vez de tentar fabricar nervosismo através de cada corte.
Existe ainda uma tentativa de discutir nossa dependência da tecnologia. Aplicativos, celulares, inteligência artificial e informações armazenadas digitalmente tornam Maia vulnerável a alguém capaz de manipular justamente as ferramentas incorporadas à sua rotina. São ideias bastante atuais e que poderiam acrescentar outra camada ao thriller, principalmente ao questionar quanto controle entregamos voluntariamente aos dispositivos que facilitam nossas vidas. Entretanto, o roteiro utiliza essa discussão conforme a conveniência da trama, criticando a tecnologia em determinados momentos para depender dela em outros sem desenvolver uma perspectiva realmente coerente sobre o assunto.

Quando finalmente revela as cartas que manteve escondidas, Corrida Contra o Tempo encontra seu momento mais divertido e também expõe uma de suas maiores fragilidades. A reviravolta final reorganiza acontecimentos anteriores de uma maneira inicialmente engenhosa, mas depende de omitir do público informações que a própria protagonista conhecia. Em vez daquela satisfação proporcionada por uma revelação que estava diante de nossos olhos desde o começo, surge a impressão de que o roteiro simplesmente trapaceou para preservar sua surpresa. Quanto mais pensamos na logística necessária para que tudo funcionasse exatamente daquela maneira, menos convincente o plano se torna.
Há um thriller eficiente escondido em algum lugar de Corrida Contra o Tempo, mas Kevin Macdonald parece correr rápido demais para encontrá-lo. A premissa possui urgência, Damian Lewis oferece alguma personalidade ao conflito e a própria geografia londrina poderia render uma perseguição eletrizante, porém o roteiro excessivamente conveniente, a encenação frenética e a dificuldade de Gal Gadot em sustentar o peso dramático enfraquecem progressivamente a experiência. O filme corre, tropeça, recupera o fôlego e volta a correr durante quase toda a duração, apenas para chegar ao destino com a desagradável sensação de que todo aquele esforço não nos levou muito longe.







