Corrida dos Bichos

(2026) ‧ 2h04

A distopia brasileira que encontra força quando corre

Felipe Fornari

Corrida dos Bichos parte de uma premissa tão absurda quanto familiar: transformar desigualdade, violência e sobrevivência em espetáculo para consumo coletivo. Em um Rio de Janeiro devastado pela catástrofe ambiental, o antigo jogo do bicho ganha uma versão ainda mais cruel, na qual corredores assumem identidades animais e colocam a vida de pessoas próximas como garantia. A ideia tem força suficiente para sustentar uma ficção científica brasileira de grande escala, e o filme aproveita bem esse potencial, mesmo quando seu roteiro não consegue acompanhar a velocidade da própria imaginação.

Mano entra nessa engrenagem contra a própria vontade. Interpretado por Matheus Abreu, o protagonista é alguém que sempre rejeitou aquilo que a Corrida dos Bichos representa, mas precisa abandonar seus princípios quando a irmã se torna moeda de troca. A jornada funciona melhor quando permanece física: correr, escapar, lutar e atravessar os destroços de uma cidade que já não existe como conhecíamos. Abreu não recebe um personagem especialmente complexo no papel, mas transmite a determinação necessária para transformar Mano em um herói funcional e fácil de acompanhar.

É no universo visual que o longa realmente impressiona. A reconstrução de um Rio de Janeiro pós-apocalíptico, tomado novamente pela vegetação e pelas ruínas, cria imagens bastante marcantes, especialmente quando as provas atravessam prédios abandonados, florestas e estruturas que parecem prestes a desabar. As corridas possuem energia, variedade e uma fisicalidade que impede que a ação se torne repetitiva. Quando Corrida dos Bichos está em movimento, a direção encontra uma confiança que falta em outras partes da narrativa.

A alegoria, por sua vez, é direta, mas eficiente. O filme transforma a desigualdade brasileira em uma competição literal na qual os mais vulneráveis colocam tudo em risco enquanto uma elite assiste, aposta e lucra. A violência deixa de ser apenas uma consequência daquele mundo e passa a ser entretenimento cuidadosamente embalado. Nesse aspecto, a presença de Anitta como apresentadora do espetáculo funciona muito bem, porque sua figura acrescenta uma camada de ironia à maneira como a barbárie pode ser transformada em produto quando existe audiência suficiente para consumi-la.

Rodrigo Santoro também se destaca como Abu, antigo corredor convertido em uma das engrenagens do sistema. Há uma energia quase caricatural em sua interpretação, mas ela combina com o tom do filme e dá ao personagem uma dimensão que outros antagonistas não alcançam. A relação entre Mano e Nadine, entretanto, vivida por Isis Valverde, é bem menos convincente. O romance parece existir mais por necessidade do roteiro do que por uma conexão construída entre os personagens, e a química entre os dois nunca alcança a intensidade que a história exige.

O maior problema está justamente na tentativa de fazer desse mundo algo maior do que aquilo que conseguimos efetivamente conhecer. Corrida dos Bichos apresenta resistência, conspirações, relações de poder e diferentes regras para a competição, mas frequentemente abandona essas ideias antes de desenvolvê-las. A comparação com Round 6, Jogos Vorazes e O Sobrevivente é inevitável, enquanto a estética pós-apocalíptica também remete a Mad Max. O problema não é dialogar com referências tão reconhecíveis, mas ainda não ter conseguido transformar todas elas em uma identidade narrativa tão própria quanto a identidade visual do longa.

Ainda assim, existe algo genuinamente estimulante em ver uma produção brasileira abraçar o cinema de gênero com tamanha ambição. Corrida dos Bichos está longe de ser perfeitamente resolvido, deixa personagens e conflitos pelo caminho e parece carregar material suficiente para uma história muito maior do que aquela que consegue contar aqui. Mas suas melhores ideias funcionam, as sequências de ação entregam espetáculo e o cenário brasileiro faz diferença em uma fórmula que poderia facilmente ser genérica. É um filme que tropeça algumas vezes no próprio roteiro, mas corre com confiança suficiente para mostrar que há espaço para esse tipo de aventura por aqui.

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