“Vindo de uma família de mergulhadores, Jay ainda inconformado com o suicídio de seu pai, resolve mergulhar mais uma vez para recuperar os restos mortais dele, mas acaba encontrando uma experiência muito mais intensa do que imaginava.”
Escrito e dirigido por Brian Duffield, baseado na obra Whalefall de Daniel Kraus, com cinematografia de Aaron Morton, música de Joseph Trapanese, e estrelando Austin Abrams, Josh Brolin, Elisabeth Shue, John Ortiz, Jane Levy e Emily Rudd, Dentro da Baleia é uma experiência profunda e emocional, uma viagem interna da alma em busca de ressignificação.
Habitantes dos cantos escuros de gigantescas baleias cachalotes, sejam bem-vindos a mais uma crítica diretamente das profundezas do mar.
Jay retorna da faculdade por uns dias para passar um tempo com sua mãe e irmãs, no entanto, é obrigado a conviver com o luto pela morte de seu pai, e com as lembranças forçadas pela sua família. Mitt, o patriarca, não era um homem fácil, e não mantinha um bom relacionamento com o seu filho, e tudo que era ruim piora significativamente quando sua saúde é mortalmente debilitada, levando-o a cometer suicídio no mar.

Em uma medida desesperada para lhe ajudar a superar a dor da perda, o jovem, que vem de uma família de mergulhadores e de conhecedores do mar, resolve mergulhar mais uma vez, agora em busca dos restos mortais de seu pai. Em uma reviravolta fantástica, Jay é engolido por uma baleia cachalote colossal, e lá precisa enfrentar não apenas a sua mortalidade, como também seus sentimentos em relação a Mitt.
Dentro da Baleia é um filme bastante coeso e consistente, tanto visualmente quanto narrativamente, ele é bastante inteligente e eficaz, e Brian Duffield executa bem o seu papel como diretor e roteirista, controlando todos os aspectos possíveis, e proporcionando uma obra de beleza e conteúdo de alto nível e homogênea.
A cinematografia de Aaron Morton consegue com maestria contar visualmente o filme, desde a qualidade impecável da imagem e as breves paisagens, e além disso, no que diz respeito ao drama e terror, as mudanças em cores e iluminação, a tensão, o suspense, a claustrofobia, ou até mesmo a talassofobia, são muito bem captadas e transmitidas, proporcionando uma forte experiência emocional (dentro do drama), e psicológica (dentro do terror). É perceptível as variações em enquadramento, ângulo, distância, visibilidade e distorções da imagem para exprimir o terror, a solidão, o desespero, e a vulnerabilidade do personagem. Seja em um barco, na água, ou nas entranhas da baleia, a presença do drama e do terror é bastante perceptível e constante.
O roteiro não é apenas sobre o terror de sobreviver a uma situação impensável: Estar preso dentro de uma baleia. Ele também aborda aspectos relacionáveis e caros para à alma humana, como o luto, culpa, ressentimento, superação e redenção. Vale também comentar as similaridades com a história bíblica de Jonas e a Baleia. Enquanto no relato o profeta se reaproxima de Deus dentro da baleia após confrontar seus sentimentos e atitudes, e se prepara para entregar a mensagem designada, no filme Jay confronta seus sentimentos e atitudes e se reaproxima de seu pai, na intenção não de entregar, mas dele mesmo receber a mensagem final de Mitt.
No longa, tanto a ameaça física quanto o conflito emocional são importantes, eles não disputam espaço, e sim se complementam, constituindo assim duas dimensões de uma mesma jornada.

O ponto no roteiro que é um pouco abaixo do restante é o fato de convenientemente já existir dentro da baleia tudo o que o protagonista iria precisar para ao menos tentar se livrar da situação. No entanto, não é algo que diminua ou atrapalhe a experiência.
Austin Abrams consegue muito bem sustentar o protagonismo com seu alcance de interpretação, devido não apenas em razão de sua qualidade e profissionalismo, mas, sobretudo ao suporte provido pela direção e roteiro.
Josh Brolin também merece destaque pela sua interpretação do perturbado Mitt Gardiner, proporcionando não apenas uma interação pesada e real entre pai e filho disfuncionais, como também trazendo à vida um personagem profundo e visceral.
Lá Dentro da Baleia ocorre uma transformação no relacionamento entre pai e filho, ainda que um deles não esteja mais vivo, os dois se aproximam, e o filho que antes via o pai como alguém desconectado da realidade, amadurece, se volta aos conhecimentos e histórias de Mitt, que agora se consolida como um mentor e guia.
Eu acredito que seja possível que muitas pessoas que possuam um relacionamento difícil com seus pais vão se emocionar com essa obra.
Whalefall (título original) mistura conhecimento sobrevivencialista, reinterpretação de uma história bíblica, drama pessoal, relações familiares, e diversos subgêneros do terror, para nos contar uma história de superação não apenas de obstáculos físicos, mas, também emocionais, e preparação para a vida.








