Diane Warren: Relentless

(2024) ‧ 1h31

O mistério que alimenta a canção

Felipe Fornari

Diane Warren: Relentless parte de um desafio curioso: como retratar uma das compositoras mais prolíficas da música pop sem transformar sua trajetória em um manual de “como criar hits”. O documentário dirigido por Bess Kargman deixa claro, desde cedo, que essa não é a intenção. Diane Warren não se interessa em explicar fórmulas, processos ou truques de bastidores — e o filme respeita esse desejo, mesmo que isso frustre quem espera respostas objetivas sobre sua impressionante produtividade.

Ao longo do documentário, somos apresentados a uma artista que já escreveu mais de 400 canções para nomes como Beyoncé, Celine Dion, Lady Gaga e Aerosmith, mas que parece desconfortável com qualquer tentativa de mitificação. Em vez de destrinchar a gênese de seus sucessos, o filme opta por acompanhar seus gestos cotidianos, seus comentários ácidos e sua relação quase instintiva com a música, criando um retrato mais sensorial do que explicativo.

A estrutura, à primeira vista, segue o formato tradicional de documentários biográficos, com depoimentos de figuras como Cher, Jennifer Hudson e Quincy Jones reforçando a dimensão de sua importância na indústria. No entanto, há uma simplicidade enganosa nesse caminho. Ao se recusar a revelar o “segredo” por trás de sua obra, o filme acaba sugerindo que o verdadeiro motor de sua carreira está na repetição, na disciplina e na entrega absoluta à criação — algo que só se percebe com o tempo.

Um dos grandes acertos do documentário é preservar a personalidade nada complacente de Warren. Sarcástica, direta e pouco afeita a sentimentalismos, ela surge como alguém que não quer ser tornada mais palatável para o público. Há momentos pequenos, quase banais, que dizem muito sobre quem ela é, como quando interfere na posição da câmera ou ironiza a própria exposição, revelando uma artista que prefere o controle do som ao da imagem.

Essa relação ambígua com a visibilidade também atravessa o filme. Warren demonstra consciência de que a indústria exige presença constante, ao mesmo tempo em que preserva um certo mistério sobre si mesma. O documentário toca em aspectos mais íntimos de sua vida, como a relação desigual de apoio que teve dos pais, sem transformar essas revelações em grandes viradas dramáticas — tudo surge com naturalidade, quase como confidências ditas de passagem.

Quando o filme se aproxima mais diretamente de sua obra, especialmente em canções inspiradas por experiências pessoais, como “Til It Happens to You”, composta para The Hunting Ground, ou “Because You Loved Me”, dedicada ao pai, surgem vislumbres mais claros de como emoção e técnica se encontram em seu trabalho. Ainda assim, Warren insiste em tratar a composição como uma espécie de atuação, um exercício de imaginação que não exige vivência direta, mas empatia e observação.

Embora Diane Warren: Relentless pudesse aprofundar melhor alguns conflitos, como sua relação com o Oscar e o desejo explícito de reconhecimento institucional, o documentário se sustenta justamente por sua franqueza desarmante. É um retrato enxuto, às vezes até seco, mas coerente com uma artista que parece movida menos por validação externa e mais por uma necessidade quase compulsiva de continuar criando. Pode não revelar novos segredos, mas captura com precisão o espírito incansável de alguém que vive, acima de tudo, para a música.

ONDE ASSISTIR

OUTROS INDICADOS