Diplomacia

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07.01.2016

Em agosto de 1944 a Segunda Guerra Mundial já estava bastante abalada e todos os pilares, aqueles que Hitler tentou construir pela Europa durante sua ocupação, estavam desabando. Paris, considerada pelo ditador um dos mais belos lugares do mundo, se tornava o último grito de misericórdia para os nazistas deixarem sua marca no mundo da pior maneira: bombardeando a cidade até não restar mais nenhuma ponte ou monumento. Em Diplomacia, do alemão Volken Schlöndorff, são mostradas as poucas horas que antecedem a execução das ordens de Adolf Hitler e a tentativa de resgatar a humanidade nos homens fardados e obedientes ao führer.

O general alemão Dietrich Von Cholitz, hospedado no belo Hotel Meurice em Paris, dá as últimas coordenadas sobre o fim da ocupação francesa que já dura quatro anos. As ordens de Hitler são expressas: os aliados estão chegando à capital francesa e ela deve se tornar apenas um sonho do passado, ele quer ver Paris em chamas, sem pedra sobre pedra. Como um bom funcionário, obediente às ordens e exausto diante de uma guerra fracassada, Cholitz organiza o grande fim. Com quase tudo pronto e a madrugada acabando, entra em cena o cônsul sueco Raoul Nordling, encarregado de convencer o general alemão a ficar conhecido, não como um simplório executor de ordens vindas de um maluco, mas sim o que salvou milhares de pessoas e centenas de anos de História.

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Entre histórias de Napoleão e suas amantes, reconstruindo acontecimentos de dentro do Hotel Maurice, Nordling vai discursando sobre a ideia de viver uma história apagada pelas guerras, um passado consumido pela vaidade dos homens, diferente da afirmação que a humanidade se recupera depressa que o general alemão chega a dizer quando questionado – logo no começo de a Diplomacia – sobre a megalomania do plano de bombardeio. Raoul Nordling ficou conhecido pelas ações humanitárias, como libertação de prisioneiros de guerra e de franceses sob ameaça de deportação, o filme faz jus à fama de salvador do cônsu

Os atores André Dussolier e Niels Arestrup são dirigidos de forma primorosa em Diplomacia, o tom intimista do filme coloca o espectador dentro do grande quarto do hotel, de forma confortável e prestando atenção na retórica, ora do cônsul Nordling, ora da cegueira obediente do general alemão, que aos poucos vai cedendo às suas próprias reflexões. Boa parte dos planos são rodados em cenas internas e isso coloca a atenção no mobiliário do quarto, nas expressões faciais e corporais dos atores e nos detalhes dos objetos, tudo funcionando em sintonia com a atuação dos atores.


Diplomacia é baseado na peça homônima de Cyril Gély e o diretor alemão faz uso de forma impressionante da ideia de retratar em apenas uma noite – o que na verdade levou vários dias, afinal não seria nada fácil conseguir a confiança de um general muito certo de seus objetivos – do diálogo entre Nordling e Cholitz. O intimismo e a urgência da situação tornam os diálogos como estratégias de um jogo instigante, mesmo que seja uma situação do passado, já resolvida, o espectador se vê na necessidade de compreender como essa partida foi vencida.

Volken Schlöndorff dirigiu O Tambor – ótima adaptação da obra (também sobre a Segunda Guerra) de Günter Grass – e também está confortável em dirigir o acordo entre a Alemanha e a França, país onde nasceu e o outro que o acolheu como cineasta, respectivamente. Inclusive, vários diálogos do longa confirmam que nem sempre onde se nasceu é o lugar possível de se chamar de lar. Diplomacia é um filme mais sobre a arte do diálogo e da humanidade – talvez ambos juntos pudessem evitar as guerras estúpidas – e pouco sobre o que já sabemos do horror praticado pelo nazismo e os aliados. O aspecto mais interessante dessa parceria entre Schlöndorff e a caneta de Cyril Gély é justamente adotar o sentido de diplomacia como fio condutor, trazendo para a ficção uma situação real tão delicada, colocando o espectador entre o homem do diálogo e o homem da guerra, percebendo as forças transformadoras de uma simples conversa.

Nota:

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ONDE ASSISTIR

AUTOR

Emanuela Siqueira

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