Elio

(2025) ‧ 1h38

18.06.2025

"Elio": Perdido no Comuniverso

Há uma ideia genuinamente encantadora no centro de Elio: um menino solitário, criativo e sensível, que deseja com todas as forças ser abduzido por alienígenas. O desejo nasce não só da curiosidade infantil, mas de um anseio profundo por pertencimento — por ser compreendido em um mundo que parece não ter lugar para sua imaginação fora do comum. Essa premissa, tão rica em potencial emocional e narrativo, merecia um desenvolvimento mais coeso e ousado do que o que o filme entrega.

Com direção de Domee Shi e Madeline Sharafian e coprodução dividida entre nomes de peso da Pixar, Elio acaba se tornando um caso clássico de “ideias demais, foco de menos”. O protagonista é um garoto sensível que perdeu os pais e vive com sua tia, uma comandante de base aérea exausta e sobrecarregada. Incapaz de se conectar com outras crianças — ou mesmo com a própria guardiã —, ele envia mensagens para o espaço, até ser confundido por alienígenas como o líder da Terra e levado para o Comuniverso, uma espécie de ONU intergaláctica.

A partir daí, o filme embarca numa aventura espacial visualmente deslumbrante, mas estruturalmente caótica. As criaturas alienígenas são criativas e exóticas, a ambientação tem a assinatura estética do estúdio, com detalhes que saltam aos olhos, e os gadgets interativos exibem a mesma inventividade tecnológica que nos encantou em Wall-E ou Divertida Mente. Mas essa beleza toda não consegue disfarçar a desorganização narrativa — o filme parece ter sido montado a partir de pedaços de várias ideias, como se um primeiro rascunho tivesse chegado intacto às telas.

A relação entre Elio e o alienígena Glordon, filho do vilão Lord Grigon, é o coração do filme — e quando foca nesses dois personagens, Elio mostra lampejos do que poderia ter sido. Glordon, que teme decepcionar seu pai ao não ter aptidão para a violência, é um espelho do próprio Elio: ambos deslocados, ambos em busca de aceitação. A química entre eles é doce e autêntica, e teria sustentado um longa inteiro se o roteiro tivesse confiado mais nesse vínculo.

Infelizmente, muitos elementos promissores são descartados rapidamente. A ideia de clones que vivem vidas paralelas em nome da aprovação parental, por exemplo, poderia render um drama complexo sobre identidade e expectativas, mas é usada apenas como uma piada passageira. Assim, o filme toca em temas densos — luto, autoaceitação, pressão familiar — sem se aprofundar em nenhum. O resultado é frustrante: um filme que quer dizer muitas coisas, mas não diz nenhuma com clareza.

Ainda assim, Elio não é desprovido de charme. Há momentos de humor sinceros, a trilha sonora funciona bem, e o elenco de dublagem segura as pontas mesmo nos trechos mais confusos. Como longa infantil, pode funcionar por seu visual vibrante e ritmo acelerado, mas para quem espera a sofisticação emocional que a Pixar nos acostumou, a experiência deixa a desejar.

No fim, Elio parece mais um rascunho promissor do que um filme pronto. É como se estivéssemos diante de um garoto talentoso, cheio de ideias, mas que ainda não encontrou sua voz. E talvez seja exatamente esse o ponto: a jornada de Elio e a do próprio filme se confundem — ambos ainda estão tentando descobrir quem são e o que querem dizer ao mundo.

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AUTOR

Felipe Fornari

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