Elstree Calling

(1930) ‧ 1h26

Um retrato da era das variedades

Felipe Fornari

Elstree Calling ocupa um lugar curioso na filmografia de Alfred Hitchcock. Embora costume aparecer em listas completas de seus trabalhos, trata-se de uma produção coletiva, dividida entre diferentes diretores e concebida muito mais como uma revista musical do que como um longa tradicional. Em vez de uma narrativa contínua, o filme reúne uma sucessão de números musicais, esquetes cômicas e apresentações de palco, costuradas pelo mestre de cerimônias Tommy Handley, que conduz tudo como se estivesse transmitindo um programa ao vivo para rádio ou, de maneira surpreendentemente visionária, para televisão.

Essa estrutura fragmentada faz com que o longa funcione menos como um filme e mais como um registro do entretenimento popular britânico do início da década de 1930. Cantores, humoristas, dançarinos, atores e músicos se revezam em apresentações independentes, refletindo a tradição do music hall e do vaudeville. Não há desenvolvimento dramático nem personagens recorrentes capazes de sustentar uma trama; o interesse está justamente na diversidade dos números e na tentativa de impressionar o público com as novas possibilidades oferecidas pelo cinema sonoro.

É justamente o contexto tecnológico que torna a produção particularmente interessante. Produzido quando o som ainda representava uma novidade, o filme busca exibir as capacidades do estúdio por meio de músicas, diálogos, efeitos cômicos e até de uma curiosa representação da televisão doméstica, muito antes de ela se tornar realidade para o grande público. A ideia de acompanhar um espetáculo transmitido diretamente para dentro das casas revela um olhar surpreendentemente moderno, ainda que o aparelho mostrado em cena esteja muito distante da tecnologia que se consolidaria nas décadas seguintes.

Como espetáculo, o longa alterna momentos bastante inspirados com outros inevitavelmente datados. Algumas apresentações musicais possuem energia contagiante e evidenciam o talento dos artistas envolvidos, enquanto determinados esquetes preservam um humor físico que continua funcionando. Ao mesmo tempo, parte do material carrega estereótipos raciais, étnicos e culturais comuns ao entretenimento da época, além de referências que hoje soam desconfortáveis. Revisitar Elstree Calling significa também compreender como o cinema absorvia, quase sem filtros, convenções herdadas dos palcos e da cultura popular daquele período.

A presença de Hitchcock, por sua vez, deve ser encarada com a devida perspectiva. Como um dos vários diretores envolvidos na produção, sua participação não define o resultado final nem permite identificar com clareza uma assinatura autoral em toda a obra. Ainda assim, alguns segmentos cômicos envolvendo a transmissão televisiva e o cotidiano dos espectadores antecipam discretamente seu interesse por dispositivos tecnológicos, voyeurismo e pela relação entre quem observa e aquilo que é observado, temas que mais tarde seriam explorados com muito mais profundidade em sua filmografia.

Visualmente, o filme também serve como documento histórico. Os cenários assumidamente teatrais, as performances executadas quase sempre de frente para a câmera e a ausência de preocupação em esconder a artificialidade dos palcos revelam um momento em que o cinema ainda buscava encontrar sua própria linguagem para o som. Em certos números, o uso de cores aplicadas por processos primitivos acrescenta um charme especial, reforçando a sensação de que estamos diante de uma vitrine tecnológica destinada a demonstrar tudo aquilo que o novo cinema era capaz de oferecer.

Vista hoje, Elstree Calling dificilmente figura entre as obras essenciais de Hitchcock ou mesmo entre os grandes musicais do período. Seu valor reside menos na força artística do conjunto e mais na capacidade de registrar um instante de transformação da indústria cinematográfica britânica, quando o entusiasmo pelas novas tecnologias falava mais alto que a necessidade de construir narrativas elaboradas. É uma curiosidade histórica agradável, por vezes irregular, mas extremamente reveladora sobre uma época em que o cinema sonoro ainda experimentava suas possibilidades e buscava conquistar o público pelo encanto da novidade.

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