De cara, somos jogados numa estrada tranquila de interior — tranquila até a câmera te mostrar a cena toda. Edgar Wilson (esse nome duplo já diz muito, Selton Mello imenso), ao lado de Tomás — um padre excomungado vivido por Danilo Grangheia — atende uma chamada: há animais mortos na pista. Mas eis que o insólito, o grotesco, o perfeitamente brasileiro, se impõe. Um cavalo está cravado até a metade do corpo no para-brisa de um carro, agonizando. O motorista, dentro do carro, coberto de sangue, urra por socorro. A carroça? Esmagada, espalhando detritos pela rodovia. Caído ao lado, o carroceiro, de capacete na cabeça, jaz — mais um corpo para contar a história da tragédia.
E é nesse caos que Tomás entra, metendo extrema-unção em defunto fresco, pois afinal velar esperanças é trabalho de padre excomungado. Edgar, por sua vez, faz o que sabe: busca tranquilizar o animal, antes do tiro seco que traz alívio. Trabalho, afinal, é trabalho. Removem o corpo do animal, colocam na caminhonete; o motorista ensanguentado sai do carro, pede carona, e a resposta do nosso protagonista já define todo o universo desse fim do mundo à brasileira: “Não é meu trabalho.” Ali, o espectador já percebe: esperança é artigo em falta, e compaixão tem turno limitado
Esse é um filme sobre o fim do mundo, mas não aquele com meteoros, zumbis ou explosões em Nova York. Aqui, o fim acontece aos poucos, como uma febre que ninguém admite ter pegado. Os animais morrem inexplicavelmente, o ar pesa, a cor do céu é um laranja impossível, e as pessoas seguem trabalhando — limpando carcaças, enterrando o que sobrou da fé. É o apocalipse à brasileira: seco, cansado e burocraticamente triste.

Selton Mello é um espetáculo como Edgar Wilson, esse homem que vive da morte alheia e a trata com a serenidade de quem já a aceitou. Ao lado de Tomás, interpretado por Danilo Grangheia, e da coordenadora Nete (Marjorie Estiano, maravilhosa como sempre), eles percorrem as estradas do inferno interiorano com uma naturalidade assustadora. Há um humor negro ali, escondido nas entrelinhas — a ironia de quem vê o caos e simplesmente anota o horário no relatório.
Marco Dutra transforma essa desolação em pintura barroca. A fotografia é um deslumbre, feita quase toda com efeitos práticos — aqui com informações da própria equipe, já conto de onde veio. Não há nada de plástico nesse universo: tudo pulsa, tudo fede, tudo parece prestes a apodrecer. E é lindo. Sério, que coisa linda ver um cinema nacional tão confiante, tão cheio de identidade, e com coragem de ser brutal e poético ao mesmo tempo.
O roteiro, inspirado no livro de mesmo nome de Ana Paula Maia, mantém a escrita visceral da autora, mas Dutra injeta seu próprio desespero. Em entrevista após a sessão (e sim, eu estava lá, na 49ª Mostra de São Paulo, empolgadíssima), ele disse que este era “um filme sobre o fim do mundo feito durante o fim do mundo” — e não há maneira mais precisa de defini-lo. A pandemia, o isolamento e o medo estão ali, mesmo quando ninguém fala sobre isso.
E o que mais fascina é o detalhe. Tudo em Enterre Seus Mortos parece pensado para te tirar do conforto. É um filme pra assistir com atenção, de corpo presente. E quanto mais você assiste, mais descobre que talvez o fim do mundo não tenha começado ali — a gente é que ainda não percebeu.

Sim, pode parecer pesado. E é. Mas é aquele peso bom, cheio de camadas, que deixa o cérebro fervendo e o coração meio quebrado. Porque o terror brasileiro tem esse poder de olhar pro abismo e reconhecer nele o reflexo de um país inteiro. Sem super-heróis, sem anjos vingadores, só gente tentando sobreviver entre carcaças e culpas.
Enterre Seus Mortos é o retrato de um Brasil fim de mundo — literal e simbólico. Barroco, complexo, e dolorosamente real. É o cinema nacional provando, de novo, que não precisa copiar ninguém pra ser grande.
Então, meu caro leitor, prepare o estômago, mas vá. Vá de olhos abertos e coração disposto. Este filme não oferece esperança, mas entrega algo muito mais raro hoje em dia: verdade. E no meio desse fim de mundo à brasileira, talvez ainda caiba a beleza de perceber que estamos, sim, vivos. Ainda.








