Há filmes que têm tudo nas mãos: um contexto urgente, uma personagem potente, temas que atravessam o cotidiano de milhares de pessoas, e mesmo assim, escorregam. Entre Nós, o Amor, produção francesa lançada em 2024, quer discutir os problemas econômicos da classe, conflitos entre mãe e filho, e o que cada um de nós somos impelidos a fazer em situações em que a esperança é tudo que resta, mas acaba preso à própria cautela. É um filme que quer falar muito, mas diz pouco.
Nicole (Valeria Bruni-Tedeschi) é mãe solo e vive com o filho Serge (Félix Lefebvre) em um conjunto habitacional da periferia de Paris. Ele estuda Biologia na universidade, ela está desempregada, endividada e emocionalmente à beira de algo que o filme hesita em nomear. Nicole tenta manter a esperança, mas tudo ao seu redor desaba com uma lentidão dolorosa. Ela parece aguardar por uma chance de mudança, mas é como se o tempo também tivesse parado, e isso o filme traduz bem, ao menos simbolicamente.

O que também dificulta a conexão com a narrativa é a forma como ela é filmada. O enquadramento torna algumas cenas confusas, como se o próprio espectador estivesse sempre um passo atrás do que está sendo vivido em tela, falta dinamismo. Essa escolha poderia ser interessante, se servisse ao conteúdo, mas aqui parece mais atrapalhar do que um recurso usado de propósito.
Nicole é o centro de tudo, e ao mesmo tempo uma figura indecifrável. Sua fala hesitante e fantasiosa, sua forma de estar e olhar o mundo poderiam indicar camadas psicológicas mais profundas, talvez uma crise, talvez uma condição de saúde, mas o filme não mergulha. Fica o tempo todo à margem, como se temesse ofender, ou pior, como se não soubesse exatamente o que quer dizer.

E essa é talvez a maior frustração: Entre Nós, o Amor tem todos os elementos para ser um retrato potente de uma geração que esperava mais da vida, mas prefere se manter seguro, como se um drama social só pudesse existir dentro dos limites do conforto estético.
No fim, é um filme que se propõe a falar de urgência, mas entrega morosidade. De esperança, mas recua diante do risco. E, numa época em que a realidade é tão brutal, talvez o que falte não seja apenas fôlego narrativo — mas coragem.







