Eros

(2025) ‧ 1h48

“Eros”: Entre quatro paredes e muitas câmeras

Felipe Fornari

Eros parte de uma proposta provocativa: registrar intimidades reais dentro de suítes de motéis, a partir do olhar dos próprios frequentadores. A diretora Rachel Ellis entrega a câmera – ou melhor, o celular – a sete casais, um trisal e um homem sozinho, convidando-os a se filmar durante uma noite. A partir desses materiais, o documentário monta um mosaico de corpos, afetos e desejos que busca expandir a noção de sexualidade no Brasil. A ideia é potente, mas sua execução levanta dilemas que o próprio filme parece não conseguir resolver plenamente.

Ao optar pelo autorregistro como linguagem, Eros toca num ponto-chave do nosso tempo: a hiperexposição voluntária. As imagens revelam performances tanto espontâneas quanto encenadas, borrando as fronteiras entre documentário e autoficção. Em certos momentos, a vulnerabilidade dos participantes gera cenas comoventes ou até divertidas. Em outros, o artifício da autoencenação esbarra em repetições ou numa sensação de distanciamento que prejudica o engajamento emocional.

Apesar do tema central girar em torno do sexo, o documentário tenta ir além do erotismo. Há conversas sobre relacionamentos abertos, inseguranças, rotina sexual, solidão, e até maternidade. Essas passagens oferecem o que há de mais interessante em Eros: a tentativa de humanizar o que normalmente é apenas fetichizado. Ainda assim, a falta de curadoria mais firme na montagem torna o todo desigual, com algumas histórias falando mais alto e melhor que outras.

O filme também corre o risco de cair numa armadilha: a de confundir exposição com profundidade. Embora o gesto de filmar-se seja, por si só, uma quebra de tabu, ele nem sempre resulta em camadas narrativas significativas. Em alguns casos, o conteúdo explícito parece mais uma provocação gratuita do que um instrumento de investigação sobre o desejo ou as relações humanas. A proposta de “quebra de estigmas” se torna, em certos trechos, mais retórica do que efetiva.

Visualmente, Eros não assume uma estética única, o que é compreensível pelo formato descentralizado. No entanto, a montagem de Matheus Farias poderia ter oferecido um fio condutor mais consistente, algo que amarrasse melhor as vozes e imagens captadas. O resultado final parece mais um catálogo de fragmentos do que uma obra coesa — algo que pode ser visto tanto como liberdade quanto como falta de foco, dependendo de quem assiste ao longa.

Ambicioso e corajoso em sua proposta, Eros entrega momentos sinceros e desconcertantes, mas tropeça na uniformidade e no impacto emocional. Ao final, o retrato da sexualidade no Brasil que se pretendia plural e vibrante acaba soando monocromático. É um filme que aposta na generosidade de seus personagens, mas nem sempre consegue transformá-la em um cinema vibrante.

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