Estados Unidos pelo Amor

29.12.2016 │ 14:15

29.12.2016 │ 14:15

Sete meses antes da queda do muro de Berlim, a Polônia foi o primeiro país a conseguir um acordo para eleições livres, fazendo que a oposição do regime comunista – que vigorava desde o fim da Segunda Guerra – ganhasse e assim pudesse estabelecer uma suposta liberdade. O país passou boa parte do século XX sob o estigma de regimes, primeiro o nazista, depois comunista. Estados Unidos pelo Amor, do jovem diretor Tomasz Wasilewski, é uma bela metáfora do retorno às liberdades, ainda que imerso em repressões – tanto pontuais quanto simbólicas – e grandes desafios como crescer economicamente e encarar o sistema capitalista, ainda distante da realidade dessas pessoas.
O ano é 1990 e a Polônia ainda é configurada por um ambiente hostil de um país fechado diante de um mundo globalizado. A cena inicial de Estados Unidos pelo Amor é uma mesa de jantar entre casais, conversa-se sobre coisas banais como troca de zlotys por dólares, compras, um parceiro que foi para Alemanha, há fartura na mesa e uma ânsia pela conversa descompromissada. Poderia ser algo corriqueiro, porém se mostra pertinente, tudo na cena é simbólico diante do contexto proposto. É ali que conhecemos as três protagonistas das histórias que irão se desenvolver durante o longa. São mulheres ansiosas pela liberdade, porém presas pelas raízes da religião, dos bons costumes e da repressão.

Através do mapeamento dos desejos dessas mulheres, em três momentos diferentes da vida, que Tomasz mostra o que foi a abertura do país, naquele momento inicial, refletido no corpo – e no privado – de pessoas comuns e não apenas dados econômicos e negociatas. Agata (Julia Kijowska), Iza (Magdalena Cielecka) e Renata (Dorota Kolak) vivem seus próprios dramas pessoais, seus corpos anseiam por algo que ainda não pode ser correspondido pois, mesmo que o país esteja aberto ao mundo – e às possibilidades – muitas gerações cresceram fincadas em tradições e, principalmente, repressões. Cada uma dessas mulheres representa algum ponto dessa sociedade que vive entre o novo e o fantasma do passado.
A igreja, o adultério, a obsessão e o desejo da liberdade dos corpos permeiam os recortes das vidas apresentadas. A escolha por protagonistas mulheres é acertada pois é o corpo delas que sente o reflexo da repressão e do autoritarismo, seja uma sociedade fechada quanto uma que acredita ser baseada em liberdades. Mesmo quando aposta na inter-relação entre as personagens, há contenção mas também um interessante estímulo mútuo. A descoberta do sexo, não apenas como ato, mas mais ainda como desejo e da existência de um corpo, que pode ir além do corriqueiro, são os pontos altos das breves passagens.

Tomasz Wasilewski tem um estilo de desenvolvimento de roteiro e personagens bastante parecido com o canadense Xavier Dolan, mesmo que não se coloque em cena ou diálogo como faz o outro. Há uma preocupação com a estética, que mostre um país ainda saindo de um estilo pouco urbano, com uma arquitetura que orna com o modo uniforme que as pessoas vivem e criam sua subjetividade. Estados Unidos pelo Amor tem belos planos, mesmo que bastante simétricos, com poucos objetos em cena, apenas quando eles realmente trazem algum diferencial como no caso de uma personagem que é uma acumuladora solitária. Há uma preocupação em que as pessoas consigam ocupar os espaços, pois estão em processo de reconhecimento.

A referência, no título, aos Estados Unidos, símbolo do capitalismo e antagonista de um regime comunista, contém a dose de ironia que acompanha o filme inteiro. Como se as pessoas, até então, vivessem bastante imersas em seguir as regras e tradições e com seus corpos engessados, esquecessem de amar. Talvez de uma forma torta e desajeitada, mas elas se abrem e exploram. Pois, para além de uma economia, um país é formado de pessoas e suas liberdades ultrapassam o direito de ir e vir. Estados Unidos pelo Amor é um retrato sensível e irônico – e também o ponto de vista bem além do costumeiro – sobre a geografia dos corpos e desejos daquilo que é mais afetado em guerras, invasões e ditaduras: a humanidade.
Nota:

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