Eternidade parte de uma premissa irresistível: um pós-vida onde cada alma precisa escolher, em apenas uma semana, onde — e com quem — quer passar toda a eternidade. É um conceito que recupera o charme das comédias românticas fantásticas dos anos 1990, aquelas que misturavam alto-conceito, emoção e um toque de magia sem medo de soar grandiosas. O diretor David Freyne abraça essa nostalgia com segurança, criando um universo organizado, visualmente sedutor e cheio de ideias curiosas que imediatamente fisgam o espectador.
O limbo tem personalidade própria — metade centro de convenções dos anos 1960, metade portal para infinitos “mundos” que prometem diferentes caminhos no pós-vida. A criatividade do design de produção torna esse cenário algo memorável, com espaços que vão de praias eternas a utopias queer, passando por mundos temáticos cheios de humor. É nesse cenário vibrante que Joan, interpretada por Elizabeth Olsen, desperta após a morte e descobre que precisará enfrentar uma decisão que nenhum consultor do além pode suavizar.

A chegada de Joan reacende uma escolha emocionalmente impossível: ficar ao lado de Larry, o marido com quem viveu toda uma vida, ou retomar o amor interrompido com Luke, seu primeiro marido, morto ainda jovem e que a aguardou no limbo por seis décadas. Freyne constrói esse triângulo amoroso com delicadeza, evitando caricaturas ou sentimentalismo barato. Os três lados dessa relação têm peso emocional e compreensões diferentes sobre amor, memória e lealdade, o que faz do conflito o verdadeiro motor do filme.
Ao mesmo tempo, o filme flui com leveza, trazendo humor, ritmo e uma abordagem imaginativa sobre o pós-vida que lembra produções como Neste Mundo e no Outro e até ecos modernos de The Good Place. Há um carinho genuíno com os personagens secundários — especialmente os coordenadores do pós-vida — que tornam a jornada mais calorosa. É uma história grande em escala, mas tratada com um toque gentil, sempre priorizando a humanidade por trás das escolhas.
O elenco ajuda muito a sustentar essa atmosfera. Elizabeth Olsen transmite tanto fragilidade quanto convicção, equilibrando o peso de uma vida inteira com o desabrochar repentino de um amor antigo. Miles Teller encontra um raro momento de charme mais suave, longe de seus papéis mais intensos, enquanto Callum Turner encarna Luke com um romantismo clássico que funciona bem dentro da estética do filme. Todos jogam a favor de um tom que mistura fantasia, comédia e emoção em partes muito bem medidas.

O problema é que, quando o filme se aproxima da decisão final, ele perde parte da força emocional que vinha construindo tão bem. O roteiro parece se encantar demais com seus próprios mecanismos narrativos e diminui o impacto de revelações que deveriam ser arrebatadoras. Não chega a comprometer a experiência, mas deixa a sensação de que havia espaço para um clímax mais arrebatador, à altura das grandes ideias que sustentam o longa.
Ainda assim, Eternidade é uma produção envolvente, charmosa e repleta de imaginação — um romance fantástico que resgata um tipo de cinema que raramente vemos hoje. Mesmo tropeçando nos instantes finais, entrega bastante: um universo criativo, personagens cativantes e reflexões sinceras sobre amor, memória e a natureza das escolhas que nos definem. Uma fantasia emotiva que merece ser vivida em toda sua delicadeza.




