Força Maior

05.03.2015 │ 20:13

05.03.2015 │ 20:13

Se uma tragédia estivesse a ponto de acontecer e você, rodeado de pessoas conhecidas como a família e/ou amigos, tivesse que agir rapidamente, o que faria? Salvaria a si próprio? Salvaria as pessoas próximas de você? Em “Força Maior” (Force Majeure, 2014) do sueco Ruben Östlund, um simples acontecimento pode acabar com a harmonia de uma família envolvendo apenas uma questão de perspectiva.
Um jovem casal e seus dois filhos estão passando uma semana de folga em uma estação de ski, há sol, as geleiras estão lindas e tudo conspira para que tenham um belo feriado em família. Mas durante o almoço uma avalanche se aproxima e o pai é o primeiro a sair correndo, salvando a própria pele. A cena não tem nada de espetacular e não é ação que comanda a situação, justamente por isso o espectador se vê confrontado pelas motivações do pai fugir e a mãe permanecer ao lado das crianças.
O clima muda conforme os dias vão ficando mais sombrios e perturbadores. A desconfiança e a mágoa pairam no ar e é quase impossível não acompanhar “Força Maior” com um olhar ácido diante dos julgamentos, muitas vezes silenciosos, entre cada membro da família, inclusive as crianças. O espectador acompanha de muito perto a desconstrução do casal, quase de forma voyeur vai se intrometendo e julgando a relação do marido fugidio e a da mulher que coloca o instinto materno acima de tudo, ou pelo menos assim ela crê.
A relação do casal protagonista se coloca em cheque entre as quatro paredes e entre outros casais de maneira social, momento em que as convenções estabelecidas entre seus pares se mostra pouco funcional e beira à hipocrisia. Uma das personagens coadjuvantes, quando questionada como consegue sair de férias sem seus filhos, afirma para a protagonista que “Mas tem muita gente que é importante na minha vida, não apenas meu marido e meus filhos.”. É apenas um dos momentos em que Roben Ostlünd, como roteirista, assinala com um sorriso perverso ao som das “Quatro Estações” de Vivaldi.
“Força Maior” é um filme sobre a criação de expectativas nas relações, sobre a força das convenções e claro, ambos vistos por um olhar sátiro e sem medo de soar hipócrita. A narrativa do longa faz o espectador se colocar na situação do casal a todo momento, assim como os personagens oscilam em seus próprios temperamentos. Há o exagero, quase pastiche, dos sentimentos de vítimas, dos sentimentos de serem donos da razão e da certeza. Fica a questão latente: O que você faria se houvesse uma avalanche?

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